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Red, hot e soul

 

 

 

Texto originalmente publicado no blog Tudo É Dança do Jornal de Piracicaba

 

Esperadíssimos pelo público brasileiro, o Complexions Contemporary Ballet finalmente se apresentou na última terça e quarta-feira no Theatro Municipal de São Paulo e mesmo com tanta expectativa deixou pontos a desejar. Não que o espetáculo não seja bom, eles são excelentes, têm um tom acrobático em todas as coreografias e o físico dos intérpretes supera o conceito de perfeição. O porém, ficou por conta "de o de sempre", pois Dwight Rhoden e Desmond Richardson — ex-bailarinos do Alvin Ailey e diretores do Complexions fundado em 1994 — não levaram nada de novo ao palco do Municipal.

 

O espetáculo intitulado "Red, Hot & Soul" ("Vermelho, Quente e Alma"), todo coreografado por Rhoden pôde ser dividido nos três blocos da apresentação. Na primeira parte, "Red" — trecho de "Anthen" ("Hino") — revela o mundo, suas complexidades e a atualidade da política global a partir do hino americano. Em cena todos os bailarinos executam sequências que evidenciam um excelente trabalho de pernas, sincronia e velocidade.

 

O balé nas pontas com movimentação quadrada, que se alternava com fluxos de movimentos curvos, deixavam claro a influência de Balanchine — um dos grandes nomes da dança americana — no trabalho do coreógrafo, que dançou para o New York City Ballet (NYCB). Vale lembrar que Balanchine também passou pelo NYCB.

 

O que talvez tenha ficado por compreender, é que como as outras coreografias "Blue" e "White" — também cores da bandeira americana — não foram apresentadas, o entendimento tenha sido dificultado. Em cena uma espécie de "pódium" poderia ter sido mais aproveitada e o tom reflexivo da proposta de Rhoden não condizia com as composições harmonicamente distorcidas de Antônio Scott, Jimi Hendriz, Depeche Mode e Astor Piazolla. Faltou conexão, ou melhor, conceito.

 

Depois do intervalo pode-se dizer que a parte "hot" apareceu. Em "Gone", "The Cyclical Hour", "Lately", "Frankly" e "Solo" performances mais tocantes, que envolviam (pouca) poesia puderam ser apreciadas. Richardson em seu "Solo" mostra que, além de diretor é um excelente bailarino. Aqueles que quiserem entender que depois dos dois blocos só faltaria o "soul", assim o fazem. "Pretty Gritty Suite" é um tributo à beleza, versatilidade e música de Nina Simone, que mostra um pouco da raiz dos bailarinos — alguns negros — da cultura africana.

 

Com pandeiros e movimentos de lindyhop e jazzdance muito performáticos, os intérpretes exploram muito bem o palco e chamam atenção pela proximidade da movimentação com a estética do corpo brasileiro. Pode-se dizer que a raiz africana é entendida por todos e é possível que ali esteja o clímax da apresentação; quem sabe o afro não seja mesmo a nossa linguagem universal? A cada dia o corpo prova que é.

 

(publicada em 1º de junho - crédito da imagem de James_Houston).

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