July 29, 2020

Please reload

Posts Recentes

I'm busy working on my blog posts. Watch this space!

Please reload

Posts Em Destaque

Barysnikov como essência

August 1, 2007

 

 

 

Texto originalmente publicado no blog Tudo É Dança para o Jornal de Piracicaba

 

Nem sempre o que está em jogo na cena coreográfica é o movimento ou a assinatura. Em muitos casos, o que se espera ver no palco é uma grande figura, um grande bailarino, que somente com sua forma de andar consegue fazer com que o corpo do espectador fique imobilizado em uma cadeira ou mesmo em uma arquibancada fria. Foi este sentimento, uma mistura de êxtase com admiração, que marcou a abertura do 25º Festival de Dança de Joinville, na última quarta-feira, quando Mikhail Barysnikov – que nos ingressos está grafado de forma errada – pisou no palco do Centreventos Cau Hansen, com a sua Hell´s Kitchen Dance.


O primeiro trabalho da noite, “Years Later” (“Anos Depois”/2006), um solo de aproximadamente 17 minutos de Baryshnikov, assinado por Benjamin Millipied talentoso bailarino do New York City Ballet, é o que há de mais belo e poético no programa formado por outras duas montagens. Ao som de “Saxophones”, de Philip Glass e “Gnossieness n.3”, de Erik Satie, o mito da dança clássica comprova como um corpo com seus 59 anos ainda é capaz de emocionar e, sobretudo, calar.


Apesar de Baryshnikov dizer que o trabalho não é uma autobiografia é impossível não reconhecer ali sua essência. Quando ele dança sozinho, sem a interferência da videografia de Olivier Simola (que está trabalhando com o multiartista francês Philippe Decouflé) que aparece nos quadros posteriores, é possível notar uma movimentação marcada por formas geométricas que aos poucos se transforma na fluidez pedida pela música.


Durante a projeção, deparar-se com um Baryshnikov com pouco mais de 25 anos, que exibe movimentos característicos da dança clássica - como baterias, uma quinta posição de pés perfeita, grandes saltos e até piruetas, que são aceleradas para darem noção de movimentos surrais - e não notar que se está na frente de um dos maiores bailarinos do século, seria negar a própria história da dança.


Em cena ele é capaz de estabelecer um diálogo próprio entre corpo e memória. Sem contar que se transforma em sombra, uma tríade de diferentes possibilidades. Baryshnikov dialoga com o vídeo na cena em que cruza seus movimentos com a dança de Aszure Barton, bailarina e coreógrafa da companhia e quando se vê jovem dançando uma coreografia moderna ao estilo da coreógrafa americana Judith Jameson, do Alvin Ailey American Dance Theatre. No palco consegue rir e brincar com suas próprias imagens.


Mesmo tendo Barysnikov como atração, a noite também foi da Hell´s Kitchen Dance. Em “Rom”, solo de Willian Briscoe, coreografado por Aszure o que chama atenção é que o intérprete, que tinha como figurino uma calça social preta, quase não se locomove no espaço. Ao ritmo de uma canção tradicional húngara, sua movimentação cheia de repetições é marcada por uma linguagem que se aproxima das danças africanas.


E por falar em linguagens, muitas escolas americanas, como Martha Graham, Alvin Ailey e Merce Cunningham se encontram em, “Come In” (“Entre”/2006), também de Aszure, na qual toda a companhia formada por 12 jovens talentos vai para o palco. Descalços, os bailarinos vestidos de preto acompanhados de Barysnikov, que não abriu mão de usar sapatilhas em cena, mostram um trabalho poético, mas que ainda procura sua identidade.


A cena mais marcante é um duo de Barysnikov com Ian Robinson, um promissor talento da companhia que já é formado pela New York City University e integrou companhias de peso do cenário da dança mundial, como o Les Ballets Jazz de Montreal e a Complexions Contemporary Ballet. No palco se vê a força e o tempo, a vontade e a conquista. Nada mais do um espelho da própria dança e da trajetória de Baryshnikov. Seja nas cadeiras pretas que estão em cena ou nos duos do conjunto coreógrafico, a Hell´s Kitchen Dance não se sustenta sozinha, ainda fica à sombra de sua grande estrela para se manter em movimento.

 

Share on Facebook
Share on Twitter
Please reload

Siga
Procurar por tags