July 29, 2020

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MEMÓRIAS CONCRETAS

 

 

 

Texto originalmente publicado no blog Tudo É Dança 

 

 

Memórias Concretas

 

A sensação de êxtase ainda não saiu do meu corpo, mesmo dias após o 1º Congresso Internacional de Jazz Dance ter terminado. Confesso, a minha respiração às vezes se descontrola. Pensei e fixei mesmo tudo o que eu senti e vivi naqueles quatro dias dentro de mim, e sei que essa sensação não vai mais sair e não adianta eu me perguntar por que me sinto assim.

 

Fiquei deste jeito, mais do que tocada, porque acho que tinha perdido o feeling do jazz... Os pliés, as coreografias, ou mesmo as seqüências das mais simples, às mais complicadas, ficaram sendo executadas por muito tempo no meu corpo. Dançá-las era algo difícil. E aconteceu de novo, da forma que eu aprendi quando só fazia isso.

 

Para isso tudo acontecer, eu precisei encontrar a Érika (Novachi) em janeiro de 2008, que acho que também precisava de mim naquele momento, para que o nosso sonho se tornasse concreto. A nossa dupla de opostos, ela contida, eu explosiva, ela tranqüila, eu nervosa, encontrou a paixão e o equilíbrio perfeito para o trabalho em dupla, que foi muito além de uma parceria. Depois do empurrão da Chris (a Mana) o trabalho se transformou em amizade verdadeira. Tenho a sensação de que a conheço há anos. E como a Rose disse, são encontros de outras vidas.

 

Desde as nossas primeiras reuniões, os primeiros e-mails, os primeiros olhares e risadas (a gente ri muito, e isso é maravilhoso), pensávamos no outro. Um outro que era, na verdade, o espelho das nossas ânsias e necessidades. Não foi a conta bancária em nenhum segundo que mudou o nosso foco, não foram as inscrições que nos surpreenderam que nos fizeram dar um passo maior do que a perna. Nós apenas desejamos, e o desejo se realizou: dar e promover a dança com amor.

 

Os quatro dias que vivemos, talvez sejam os mais intensos de dança que meu corpo se expôs até agora, foram uma das minhas maiores alegrias. O jazz é algo maior. Algo meu. Algo da alma, que transcende e se transforma em movimentos (doloridos até, porque no segundo dia eu não conseguia andar...).

 

Cada detalhe, da pulseira de acesso, ao jornal, a camiseta, a recepção. Tudo foi pensado. Tudo foi trocado. Eu e a Érika éramos uma única voz, um corpo, uma palavra, uma dança. O “sim” de uma, era o “sim” da outra. Por isso funcionou. O idioma falado é o do jazz.

 

A cada aula um aprendizado. Cada professor contribuiu com o seu melhor. Chris e sua musicalidade; Caio e seu musical; Sue e sua tradicionalidade; Érika e o seu lyrical; Cinthia e sua negritude, e Rose, com a sua dança única e inspiração. Inspiração que motivou e, sobretudo, transformou corpos amortecidos com a massificação de uma esfera chamada dança. Transformou almas que queriam dançar, apenas dançar.

 

E dançar não é pedir muito. Foi preciso dizer que o congresso do jazz e do amor, como caracterizou uma aluna, foi real. Foi tudo de verdade, por mais que eu ainda custe a acreditar. Tudo aconteceu mesmo por mais que pareça mentira. O clima foi de paz, por mais que a dança às vezes viva em guerra. A harmonia reinou na cidade, por mais que os grupos disputem uns contra os outros nos festivais. As pessoas foram amigas, se uniram para um pensamento. Dançaram nossa principal idéia.

 

Confesso que não sei porque estou escrevendo tudo isso. Talvez parte dessa sensação precise sair pelos dedos, encontrar as teclas do computador e se transformar em palavras concretas, sobre um evento concreto, sobre uma dança possível. Ainda mais porque eu trabalho com as palavras.

 

E como cada um, por menor ou maior, que tenha sido a participação do nosso evento, fez a diferença. Sem todos não teríamos como saborear cada lembrança agora.

 

Aprendi como é possível dividir e acreditar nesta idéia que eu e a Érika dançamos por um tempo sozinhas. Ela tomou vida, ganhou pernas, pés, corpo.

 

Cresce.

 

Obrigada!

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