Roseli Rodrigues (1955-2010)




Texto originalmente publicado no blog Tudo É Dança


Eu não penso em uma foto para este post. Não é a imagem aqui a protagonista. Mais importante é a história, o sentimento, a memória.


O telefone tocou muito cedo e eu sabia qual era a notícia. Mesmo assim, ainda não acredito. Mesmo depois de ver, ainda não acredito. Tudo ainda está confuso dentro de mim.


Todos já sabem que Roseli Rodrigues agora dança em outro lugar. Todos os sites de dança já deram, os jornais, revistas, boletins...


Muita gente me escreveu, me ligou e me perguntou: Você não vai escrever nada? Fato é que eu não queria dar essa notícia. Não precisava ser a primeira. Longe disso. Eu não pensava em simplesmente nada. As horas demoraram dias para passar.


Fato é que eu escrevi, mas eu não precisava colocar aqui naquele momento. O pequeno texto, mensagem, desabafo, ou qualquer outro nome que dêem a um grito de silêncio em forma de palavras estava público no site do Raça Centro de Artes. (o texto está abaixo).


Confesso que escrevi a pedidos da Kika Sampaio. E eu não teria outra resposta para dar para ela a não ser um "sim, escrevo". Um sim, engasgado, porque confesso que foi muito difícil. Como foi complicado sentir. Como foi complicado lembrar...


Roseli Rodrigues foi o meu ídolo. O ideal de jazz. Quando ela falava o nome da gente nas aulas era um prêmio. Dava vontade de fazer tudo errado, para ela dizer "Marcela" toda hora. Confesso que eu fiz isso algumas vezes.


As horas ao lado dela passavam rápido. Eram risadas, olhares, aprendizado. As aulas eram simplesmente lindas do começo ao fim. A admiração era uma espécie de transe coletivo.


Ela foi um dos diversos motivos pelos quais eu fui estudar história do jazz . Depois de uma palestra em Joinville, eu não me lembro o ano, que falava sobre os caminhos do jazz que eu resolvi ir atrás dessa história que era tão minha, mas eu não sabia de onde vinha.


Era por causa dela que eu ia todos os anos para Joinville fazer aula.... Janeiro era o mês da dança em São Paulo porque a Roseli ia dar cursos de férias. Quem não queria vestir a camiseta do Raça, ou ter um CD da aula? Quem não voltava do curso e colocava o CD para tocar... e fazia o plié? TODO MUNDO! Quem não se orgulhava das fotos? Das lembranças?


Ainda sinto ela pegando no meu rosto em outubro de 2009 e me dizendo que eu estava trabalhando no lugar certo e que ela estava feliz por mim. Que eu merecia. Parece que ainda posso sentir os dedos... ouvir o tom da voz... a respiração. Ainda consigo sentir o cheiro.


É essa imagem que fica e todas as outras vividas... São história de um corpo em movimento que agora entra em pausa, para que "Novos Ventos" dancem por ai. Tudo foi lindo e maravilhoso de viver.


É só isso que eu consigo dizer:

... As palavras parecem não sair pelos dedos. De verdade, parece um sonho. Talvez seja.

A dona dos olhos azuis mais transparentes da dança, agora faz arte em outro lugar.

O sentimento que ela foi capaz de provocar em cada um dos indivíduos que passaram pelas salas de aula do Raça, pelos cursos Brasil a fora: só quem viveu....

A sua voz. O seu olhar. A forma de dançar. O pequeno gesto. A barra coreografada. A bronca. O sorriso. Os cabelos vermelhos.

Tudo agora está marcado. Grudado na carne, na memória, na lembrança, na história da dança brasileira que perde uma de suas referências.

Seja na “Noite Adentro” ou nos “Caminhos da Seda” que cada um escolheu trilhar.

Parte do jazz se vai. O swing diminuiu, porém, por ela, para ela: a força, a garra, a raça terão que continuar.

Roseli será sempre lembrada. Sempre amada e, sobretudo, aplaudida.

5,6,7,8. A dança agradece o seu amor, o seu trabalho, o seu olhar transparente de alma para a arte.

Obrigada!

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