Um olhar sobre Balanchine-Robbins


Fotos: Divulgação





















Texto originalmente publicado no blog Tudo É Dança


DE NOVA YORK | O David H. Koch Theatre, no Metropolian Opera House, em Nova York, estava completamente lotado na última quarta-feira, dia 18. Óbvio. Não é sempre que o New York City Ballet (NYCB) coloca lado a lado, em um único programa, obras de seus dois coreógrafos fundadores: George Balanchine (1904-1983) e Jerome Robbins (1918-1998) – a companhia foi fundada por Balanchine e Lincoln Kirstein (1907-1996). De Balanchine apresentaram Apollo (1928) e La Sonnambula (1946), de Robbins Afternoon of a Faun (1953) e Antique Epigraphs(1984). Resumindo: mais do que um programa de primeira, na verdade, um motivo para se entender um pouco mais de história da dança.


Pouco antes da apresentação, um grupo de aproximadamente 50 pessoas participou do que eles titulam de painel de discussão, um projeto de formação de plateia no qual, por aproximadamente 15 minutos, um representante do NYCB apresenta detalhes dos programas da noite. A ação criada há muitos anos pela Companhia pretende que o público não assista somente uma sequência de passos, mas entenda cada obra dentro de seu contexto histórico e possa criar diálogos entre os programas da companhia.


Criada com o nome de Apollon Musagète para os Balés Russes, de Sergei Diaghilev (1872-1929), com música de Igor Stravinsky (1882-1971), Apollo é o mais antigo balé de Balanchine presente no repertório do New York City Ballet – a companhia o estreou em 1951. Os bailarinos o executam com propriedade, os corpos têm o idioma Balanchine; logo, a movimentação é natural. Balanchine dialogava o tempo todo entre o simples e o complexo. Uma de suas marcas: a guirlanda de corpos e braços em quinta posição está presente nas torções e inclinações dos intérpretes. As bailarinas são precisas, mas Chase Finlay (Apollo) é quem nos imobiliza. Sua força cênica faz com que os olhos se percam.


Ainda de Balanchine, La Sonnambula nos leva para o mundo dos musicais. Ao assistir a esta obra,  podemos entender hoje como muitas coisas se articulam na cena e como reproduzimos formas coreográficas, às vezes, sem saber de onde elas vêm. Balanchine coreografou este balé em 1946 – com o nome de Night Shadow – para o Ballet Russe de Monte Carlo sobre a música de Vittorio Rieti, baseada nas óperas de Vicenzo Bellini. A peça estreou pelo NYCB em 1960. A história de mistério e de amor entre uma sonâmbula e um poeta é um verdadeiro baile, com direito a minueto, dança de pares e palco lotado por bailarinos impecáveis em técnica. Os cenários e figurinos de Alain Vaes chamam atenção pela beleza, e a intensidade de luz de Mark Stanley dá à coreografia a dramaturgia de cada momento da cena. Um detalhe que chama atenção e faz diferença no resultado: os pés esticados dos bailarinos nos sapatos de salto e a beleza no acabamento dos movimentos. Pela tradição NYCB, não poderia ser diferente.


No meio das peças de Balanchine, como um convite ao estudo da vida de Jerome Robbins, foram apresentadas, respectivamente: Afternoon of a Faun e Antique Epigraphs. A releitura de Robbins para Prèlude à L’aprés-midi d’un Faune (1912), de Vaslav Nijinsky (1890-1950), sobre música homônima de Claude Debussy (1862-1918) é primorosa. Se Nijinsky chocou Paris na época de sua criação por levar ao palco um balé em que o erotismo estava presente, Robbins fez exatamente o contrário. Ele leva o enredo para dentro da sala de ensaio, reconstruída na caixa-preta por Jean Rosenthal, na qual os espelhos são grandes janelas azuis, um fauno (Craig Hall) delicado e contido, que sonha com um amor impossível. Sua ninfa é uma bailarina (Janie Taylor) de cabelos longos e soltos, que dança para ele e com ele. Os intérpretes são longilíneos e, sobretudo, técnicos e o pas de deux é tão bem construído que os oito minutos passam como se fossem segundos.


Mais do que Afternoon of a Faun, Antique Epigraphs dialoga de forma direta com o fauno de Nijinsky por conta dos movimentos lembrarem imagens dos frisos gregos – a aversão do fauno de 1912 foi inspirada nos frisos dos vasos gregos e nas imagens egípcias do Museu do Louvre. Este balé, também com música de Debussy, teve a música inspirada num poema (outra semelhança com a composição do fauno de Nijinsky, criada por conta do poema de Sthéphane Mallarmé) grego chamado Songs of Bilitis. O conjunto de oito intérpretes é forte. O movimento delineado dos braços chama atenção pela limpeza e também pela sincronia. Mais interessante é ver como Robbins transitava entre diferentes estilos de movimento sem choques – isso lhe garantiu grande reconhecimento e sua versatilidade passou a ser admirada. Ele, por exemplo, coreografou West Side Story, um dos grandes musicais da Broadway, em cartaz até hoje, no qual se configura como um grande corógrafo de jazz. Uma suíte deste musical será apresentada pelo NYCB na semana que vem num programa somente dedicado ao coreógrafo. Ah, sim. O NYCB faz jazz, tem aulas de jazz, ou melhor, dança jazz (também).


Nessa noite, mais do que o detalhe do movimento, o que salta aos olhos é a história. É preciso dizer que o programa do NYCB (a famosa revista chamada de Playbill) é o mais completo de todos do circuito da dança americana deste segmento por trazer a biografia dos coreógrafos e fundadores com datas de nascimento e morte e também a história contextualizada de cada uma das obras apresentadas. Muitas companhias apresentam Balanchine e Robbins, mas é preciso que o passado sobrevive e se reinventa no presente. É bom olhar para trás.

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