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Asas de borboletas

Texto originalmente publicado na Revista de Dança

 

A volta do Nederlands Dans Theatre (NDT) I ao Brasil, depois de um hiato de onze anos, agora sob a direção artística de Paul Lightfoot – que assumiu o cargo no ano passado – mostra que ela continua sendo uma das melhores companhias dança do mundo. Para a rápida temporada, no Rio de Janeiro e em São Paulo, trouxe cinco coreografias: três apresentadas no Municipal do Rio, e outras duas, no de São Paulo.

                                                                                               

                                                     Em Solo echo o palco é tomado pela neve,

                                                     que se vê, mas não se enxerga cair ao chão

 

 

 

                                                Speak for yourself (1999), de Sol León e Lightfoot:

                                                elementos cênicos como tônica

 

 

 

Criado em 1959, o NDT fixou seu nome no cenário da dança mundial principalmente a partir de 1975, quando o tcheco Jíri Kylián assumiu sua direção artística. Kylián, um gênio da dança contemporânea, assinou 101 trabalhos para o grupo. Sua coreografia de despedida, a qual comemorou os 50 anos do grupo, foi Mémoires d’oubliettes (2009), peça que abriu a temporada carioca.

 

Mémoires d’oubliettes (Memórias da Masmorra) é um espelho da trajetória do coreógrafo na companhia, com citações de diversos trabalhos anteriores, como Symphony of psalms (1978), Stamping ground (1983), Sechs tänze (1986), Petite mort (1991), entre outras. “Parece que existimos no mundo de ‘perdidos e encontrados’ e, de uma estranha maneira, sinto que é tão bom ser encontrado quanto estar perdido, sendo recordado ou esquecido. Nunca podemos ter certeza…”, escreve o coreógrafo no texto de apresentação da obra. Na montagem, Kylián retoma por meio de três casais de intérpretes sua dualidade temática como vida e morte, memória e esquecimento, encontros e desencontros, perdas e ganhos, silêncio e voz, manipulação e passividade.

 

A coreografia começa com seu título projetado na rotunda. Letras escorrem e formam palavras: mãe, dúvida, morte, esquecimento, emoção. E de repente a caixa-preta aparece descortinada por elásticos negros na vertical. Um exatamente colocado ao lado do outro. Os bailarinos com figurinos brancos, entram e saem por este espaço de contraste, uma masmorra que aprisiona o corpo, o olhar e a memória. A obra é marcada por duos em que o movimento de um corpo reverbera no outro, como se fossem ativados pelo toque. Um intérprete dança com um pano na boca e lança a voz do silêncio, outro aparece como um cachorro, rastejando desejos; preso a pequenas latinhas, um bailarino corre e atravessa a diagonal do palco, uma bailarina manipula seu partner com uma prótese que amplia sua mão ao menos cinco vezes; a sombra de um bailarino ganha cor e movimentos próprios na projeção; chovem latas.

 

O poema visual proposto pelo corógrafo carrega múltiplas interpretações e formas de leitura, mas sua marca está aí, anunciada. A voz de Kylián em gravação aparece o tempo todo. Ele sussurra palavras como say no (dizer não), enough (suficiente), go back (volte), eachtime (cada tempo), home (casa), change (mudar). Parece falar com o inconsciente de cada corpo que ajudou a moldar, a criar identidade, e também, se despede. Kylián disse: “quando era jovem queria ser lembrado por algo que eu houvesse criado, e isto bastaria.” Conseguiu mais. Em Mémoires d’oubliettes se vê além da dança, fica-se frente a frente com o reflexo do seu grande criador revelado no e pelo corpo do outro.

 

Para compor o programa carioca, outras duas peças: Solo echo (2011), (a tradução seria algo como solo de repetições) criado pela canadense Crystal Pite, coreógrafa residente do NDT há sete anos, e Speak for yourself (Fale por você) (1999), de Sol León e Lightfoot. Ambos trazem elementos cênicos como tônica. Em Solo echo o palco é tomado pela neve, que se vê, mas não se enxerga cair ao chão. A iluminação faz com que o espectador não saiba se realmente existe uma “neve” caindo ou se é uma projeção em HD. Inspirada nas sonatas de Johannes Brahms (1833-1897) para violoncelo e piano e no poema Lines for Winter, de Mark Strand, a coreografia criada para sete intérpretes (três mulheres e quatro homens) mostra que a companhia tem uma forma própria de se mover. A primeira parte, também marcada por duos, pontua a fluidez do movimento e a segunda é mais caracterizada pelas formas do conjunto que se move em canon (termo usado em dança para caracterizar movimentos da coreografia que são feitos de forma sequenciada pelos intérpretes, um de cada vez).

 

E se neva em Solo echo, chove em Speak for yourself. A dupla motivada pela “aparentemente complicada e naturalmente pura” Arte da fuga, de Johann Sebastian Bach (1685-1750), propõe uma tempestade de oito corpos em movimento. Linda tempestade, também com fogo. O balé começa com um bailarino que emite fumaça do corpo. A névoa toma conta do palco e a chuva começa. Os figurinos colados ao corpo ajudam nos slides sobre o chão. A movimentação é forte, precisa e controlada sobre a água. No entanto, em certos momentos, o visual é tão mais envolvente, que só se olha para a plasticidade da cena. Ao mesmo tempo, “complicado e natural” é o final, um caos em harmonia: um bailarino parado parece perder a cabeça, a chuva termina em um piscar de olhos e, em outro, as nuvens e a fumaça voltam para organizar o espaço e a falarem por si.

 

DIÁLOGOS – Duas peças e nenhum Kylián. O comentário da classe artística da dança em São Paulo era esse, com relação ao repertório escolhido para a cidade, já que o Rio de Janeiro recebeu três obras, sendo uma do coreógrafo. Porém, a apresentação em São Paulo suspendeu corpos da cadeira, sobretudo com Schmetterling (2010) que compôs o programa ao lado de Sehnsucht (2009) ambas de León e Lightfoot, dupla com 40 trabalhos para o NDT.

 

Sehnsucht (Saudade, nostalgia, desejo), é visual, poético e narrativo. Um homem preso às suas memórias assiste a um casal dançar enclausurado em um quarto suspenso e giratório, em que o chão vira parede; a cadeira, cama; o teto, chão, e a porta, janela, ao som dos allegros da Quinta sinfonia de Beethoven (1770-1827). A beleza visual é tão grande que o trio sustenta toda a primeira parte da obra.

 

Os movimentos são suaves, contemporâneos e a inteiração do trio se dá quando o casal se beija. Assim começa a segunda parte. O quarto suspenso sai da cena para que os outros treze bailarinos cheguem com um conjunto fortíssimo, marcado por sequências neoclássicas, de pequenos e grandes saltos e baterias de pés que correspondem exatamente à estrutura da música. Sabe-se o que vai ouvir, mas não o que se vai ver. No final, o quarto reaparece, mas desta vez a paixão escapa. A mulher sai pela janela e o homem, pela porta. Aquele que olha, se curva diante do seu próprio sonho e ali permanece.

Permanece durante grande parte do intervalo, quando um faixo da cortina fica aberto e o público não sabe se sai para um café ou se fica para olhar a montagem da próxima obra. A maioria fica. O bailarino continua ali, intacto. Quem não entendeu que aquilo era parte da coreografia, achava que algo tinha dado errado. Quando ele se levanta e sai vagarosamente, outra bailarina chega e cruza o proscênio de forma lenta. Ela se senta na beira do palco, tosse. O tempo passa. Ela perde a cor, fica mais velha, mostra que está com falta de ar. Seu corpo antes flexível, agora é rígido, corcunda. O bailarino que saiu pela porta na cena final de Sehnsucht, volta. Cruza com a bailarina. Schmetterling (Borboletas) começa.

 

O cenário mostra o palco dividido em cinco partes. Ao fundo, escondido, está um céu escuro com nuvens brancas, que vai sendo percebido ao poucos. A bailarina corcunda, agora aparece velha, com cabelos brancos em diálogo com o intérprete que cruzou o seu caminho. O bailarino que sonhava com o casal apaixonado em Sehnsucht volta vigoroso e preparado para o embate.

 

O movimento dos braços chama atenção. Na maioria das vezes retos, parecem ser o código de início de cada nova música. Talvez sejam as borboletas, título da coreografia, que sempre estão em transformação, sobretudo, quando a letra de All my little words (The Magnetic Fields), diz: You are a splendid butterfly. It is your wings that make you beautiful. And I could make you fly away. But I could never make you stay. (Você é uma borboleta esplêndida. São suas asas que a fazem linda. E eu poderia te fazer voar. Mas não poderia nunca fazê-la ficar). A trilha sonora de Max Richter e The Magnetic Fields, incluindo partes do álbum 69 love songs, escrito por Stephin Merrit, faz o espectador ter vontade de se mover na cadeira e traz à cena movimentos mais literais. O balé tem um certo humor em contraste com um figurino de guerra: capas pretas e boinas e depois vestidos estruturados. O tempo e sua passagem estão presentes durante os 25 minutos da obra. O ir, vir, sumir. Morrer, partir. A transformação natural.

 

Sehnsucht-Schmetterling poderia ser uma única peça da companhia, sobre o que sente o corpo e como ele se transforma. Pois é neste corpo que a dança singular do NDT se materializa.

 

Mémoires d’oubliettes, peça de 2009, de Jíri Kylián

 

 

Schmetterling (2010) compôs o programa de São Paulo ao lado de Sehnsucht (2009), ambas de León e Lightfoot, dupla com 40 trabalhos para o NDT

 

 

 

 

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