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Além de histórias de dança

July 13, 2012

                                                                     Fotos: Reprodução, Arquivo de Thiago Soares e Flavita Valsani

 

“Não há uma só frase, um só discurso, uma única conversa, que não traga a marca da posição do sujeito quanto ao que ele diz”(Jacques-Alain Miller em Lacan Elucidado)

 

Faltam poucos dias para a estreia de Teu Corpo é Meu Texto, o mais novo espetáculo de José Possi Netto e Anselmo Zolla com a Sociedade Masculina, Studio 3 e participação especial de Christiane Torloni. Os bailarinos chegam ao ensaio na sede da escola devagar, sentam no chão, conversam, riem. Num canto, um intérprete faz abdominais sobre uma bola, em outro, uma bailarina lê a ordem das trocas de figurino, que por sinal é muito rápida. A sala de ensaios com linóleo e paredes brancas vai vagarosamente ganhando cor e voz. O texto é claro: às vésperas das apresentações, os detalhes farão diferença.

 

E os detalhes são traduzidos na voz de Liris do Lago, ensaiadora e bailarina da companhia. Seu tom é suave, pontuado, atencioso e, quando a palavra não dá mais conta de explicá-lo, ela o transforma em gesto. O movimento está ali, grudado. Quando entra em cena, impossível não grudar os olhos. Com Paula Zonzini também é assim. Qualidade de movimento, dramaturgia traduzida em corpos que falam. Entre uma correção e outra, a companhia passa algumas cenas do novo balé, dividido em quatro partes. Reveem gestos, colocações, entendem tempos e formas. Fazem a primeira cena diversas vezes: homens que seguram sapatos de salto vermelhos rastejam ao comando de mulheres. Christiane, que interpreta Sarasvati, deusa hindu da sabedoria e das artes, testa uma nova peruca (contemporânea, com dreads) e o figurino de uma das cenas – um vestido drapeado que os bailarinos entram embaixo, assinado pelo talentoso Fabio Namatame – ainda deve ganhar ajustes.“Quando o Zolla me convidou para esta montagem, nossa ideia inicial era falarmos do universo feminino. Com o tempo, a obra foi ganhando novas proporções. O espetáculo discute a capacidade de sonhar, o poder da divindade através do corpo”, fala o diretor. “Em cena, os artistas transcendem o movimento e podemos ver o texto traduzido em imagens”, completa Possi Netto. Teu Corpo é Meu Texto é a terceira parceria dele com o Studio 3.

 

A trilha sonora de Felipe Venâncio é pontuada por poemas de Eduardo Ruiz, lidos por Christiane e peças que vão do clássico de Tchaikovsky (1840-1893) e Stravinsky (1882-1971) aos boleros da banda americana Pink Martini. “Na última parte da coreografia homenageamos grandes nomes da dança como Isadora Duncan (1877-1927), Maurice Béjart (1927-2007), Vaslav Nijinsky (1889-1950) e Martha Graham (1894-1991) e, para citar uma personalidade da dança do Brasil, destacamos Marilena Ansaldi”, aponta Possi.

 

Roland Barthes em O Prazer do Texto diz que “o texto que o senhor escreve tem que me dar prova de que me deseja. Essa prova existe é a escritura. A escritura é isto: a ciência das fruições da linguagem […]”. Em Teu Corpo é Meu Texto a escritura é feita pelo corpo, este que deseja a palavra em movimento.

 

 

A Sílfide

por Inês Bogéa*

extraído de Outros Contos do Balé (Cosac Naify)

 

Numa fazenda na Escócia, moravam James e sua mãe, Ana. Um dia, ele adormeceu, sentado junto à lareira, e sonhou com uma jovem desconhecida, de vestido branco e longo, ajoelhada a seus pés. Ela era como um sopro de ar, esvoaçando em torno dele e tornando tudo mais leve. James, ainda adormecido, procurava seguir os movimentos dessa etérea criatura, até que sentiu os lábios dela lhe tocarem a testa – e acordou num sobressalto, perseguindo seu sonho. Como aquela cena parecia tão real, ele resolveu chamar seu amigo Gurn, que, de sua parte, também sonhava, mas de olhos abertos. Ele era apaixonado por Effie, a noiva de James, e mal conseguia disfarçar o seu amor.

 

James, meio zonzo, ainda sentia a presença daquela moça tão suave do sonho em seu redor. Será que ela existia de verdade? Doce e delicada, nem parecia andar, mas flutuar. James perguntou a Gurn se ele também a tinha visto; mas logo a conversa dos dois foi interrompida pela chegada de Ana e Effie. Gurn não escondeu sua alegria em vê-la. James, ao contrário do amigo, não lhe deu muita importância. Era impossível esconder a sensação provocada pela imagem clara e forte, que reaparecia à sua frente sem parar, mesmo de olhos fechados. Effie estranhou o jeito do noivo e ficou pensando que motivos ele teria para tratá-la dessa maneira, justo no dia do casamento. James estava mesmo distante, dividido entre a noiva e aquela misteriosa criatura do sonho; apesar de amar sua noiva a outra moça não lhe saía dos pensamentos.

 

Por mais que buscasse entender, Effie não encontrava uma razão, não entendia por que ele estava assim, bem nesse dia. As amigas da noiva chegaram cedo, animadas, falando e gesticulando em volta dela. Mesmo com a animação das meninas, James continuava sonhando acordado, perto da lareira, quieto e pensativo, com o olhar perdido. Até que foi surpreendido por Madge, uma velha feiticeira, que ele tentou mandar embora. Mas a feiticeira não entrou no jogo dele: com um riso gelado, soltou um ôôô gutural, bateu palmas, bem alto, e atraiu as moças, que correram em sua direção, para saber do futuro. Effie foi a primeira a se aproximar da bruxa:

– Serei feliz no meu casamento?! – perguntou.

– Sim – respondeu a velha feiticeira.

– James me ama sinceramente? – continuou Effie.

– Não – foi a dura resposta.

 

James, mais uma vez, tentou expulsar a feiticeira: “Não, não, não há nada para a senhora fazer aqui”, disse ele, irritado. Antes disso, Gurn correu e ofereceu a ela sua mão. A feiticeira revelou que… sim, ele amava Effie de todo o coração.

 

– Agora, isso foi longe demais – disse furioso o dono da casa, enxotando a feiticeira. Gurn implorou a Effie que desse atenção às palavras da bruxa. Preocupada, mas convicta de seu amor, a moça garantiu a James que não acreditava em nada daquela história e subiu as escadas para se arrumar. No fundo, ela tinha medo de falar demais e macular o mistério daquele dia. A feiticeira partiu, vociferando e jurando vingança por ter sido expulsa.

 

Na sala, sozinho, James voltou a seu sonho e ficou, de novo, indeciso. Foi quando um vento forte escancarou a janela, trazendo de volta a Sílfide, que de pronto lhe declarou o seu amor. O vento úmido lhe gelava a alma. Com o coração apertado e cada vez mais confuso, explicou a ela que estava comprometido com Effie. A Sílfide não quis ouvir. Começou a chorar baixinho, dizendo que preferia morrer. As coisas se complicavam. James segurou suas frias mãos, olhou em seus olhos e disse que também a amava, e queria estar ao lado dela. A Sílfide, por sua vez, queria que James fosse para a floresta. Com um nó na garganta, hesitante, ele continuou olhando para a delicada criatura à sua frente, agora ainda mais frágil. Gurn, que assistia a tudo, correu para contar a Effie e suas amigas, chamando-as para a sala. Ao ouvir o rumor, James escondeu a Sílfide com sua manta. Todos ficaram procurando a moça, olharam aqui e ali, levantaram a manta e nada encontraram. Gurn tentou desmascarar James, mas não tinha provas. Os convidados foram chegando, e Effie estava cada vez mais apreensiva com toda aquela história. Ela tentava, sem sucesso, atrair a atenção de seu noivo. A pálida Sílfide, que só ele via, esvoaçava entre os dois. James a perseguia em vão: parecia um louco, andando sem rumo.

 

A cerimônia já ia começar. James estava qual um sonâmbulo. Fazia tudo mecanicamente e assim pegou a aliança para dar a Effie, mas a Sílfide arrebatou o anel num voo ligeiro, jurando que morreria se ele se casasse e lhe suplicou que fosse embora com ela. Temendo a morte da Sílfide, James partiu, deixando Effie desconsolada, sem conseguir entender o que acontecera. Seu corpo todo tremia, seus ombros e braços caíram, seu rosto se desfez, seus olhos se encheram de lágrimas. Todos ficaram surpresos. Apenas Gurn entendia – e, no fundo, guardava esperanças de ter Effie a seu lado.

 

No meio do nevoeiro da floresta, Madge fazia suas bruxarias: desenhou um grande círculo e, no centro, colocou o caldeirão. Junto a ela estavam mais três bruxas, preparando um xale encantado. Numa clareira, estavam James e sua amada. Os dois caminhavam juntos pela floresta. Várias sílfides e silfos os acompanhavam, e a Sílfide começou a brincar com ele, aparecendo e desaparecendo. Por vezes, James abraçava a sílfide errada e logo descobria que era uma das irmãs dela. Ele estava exausto de tentar alcançá-la, sem conseguir mantê-la em seus braços por um minuto. Aos poucos, um por um, os silfos foram para o fundo da floresta e ele ficou só, no silêncio – o silêncio mais fundo do seu coração. Dessa vez, foi de Effie que ele se lembrou e, desesperado, achou que trocara seu amor certo por apenas um sonho. Para ele, tudo começou a se tornar nebuloso. Era o dia mais longo e enevoado de sua vida.

 

Envolvido em pensamentos, vagava pela floresta, até que encontrou a velha Madge. Há pouco, ele a expulsara de casa, mas agora precisava de sua ajuda; nesse momento, ele se esqueceu do que fizera. Seu desespero o deixou cego. Pediu desculpas pelos insultos e ajuda para manter a Sílfide ao seu lado. Prontamente, Madge lhe entregou o xale, dizendo sem titubear: – Enrole-o em volta dela, e suas asas cairão, ela se tornará mortal e você a terá para sempre. James não desconfiou de nada, agradeceu e foi ao encontro da Sílfide, que, ao vê-lo, voou para perto dele. Ansioso por experimentar o talismã, ele a envolveu com o pano fatal.

 

As brilhantes asas da Sílfide esmaeceram e tombaram por terra. Sua pele perdeu a cor, seus olhos não conseguiam mais se abrir, uma sombra encobriu-a por inteiro. James apertava-a contra o peito, envolvendo-a em seus braços, sem conseguir impedir que ela desfalecesse a seus pés. No maior desespero, ouviu seu adeus abafado pela risada da bruxa, que vinha espiar a tragédia. Tomado de remorso, ajoelhou-se diante de sua frágil Sílfide. James não via mais nada; com lágrimas nos olhos, sentiu apenas o ar se encher dos silfos, que desceram das árvores e a levaram para o alto, longe da vista dos mortais.

 

Um profundo silêncio invadiu a floresta. E Madge, ainda não satisfeita, mostrou a James o futuro de Effie. Ao som da música das gaitas de foles, acompanhada pelo badalar dos sinos da igreja, avançava um cortejo nupcial: era Gurn que levava Effie ao altar.

 

* Inês Bogéa é consultora da Revista de Dança.

 

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