No espaço digital, a força de uma ideia

Ilustração: Suye Okubo

Texto originalmente publicado na Revista de Dança

A Revista de Dança comemora um ano de vida amanhã. Idealizada por Flávia Fontes Oliveira e Marcela Benvegnu, nasceu com dia e hora marcados: 09 de março de 2012, às 9h03. Logo de início registrou de maneira particular sua compreensão da pluralidade das ações e a diversidade de gêneros da dança hoje. Nesse ano de vida, a Revista de Dança foi direto ao coração dessa arte irrigando o mercado com novos olhares e distintos entendimentos da produção desse tempo.


Podemos ver decantado um aprendizado que se realiza na arte de fazer a dança acontecer de muitas maneiras e podemos perceber também a generosidade de abrir espaço para que pessoas com formações e opiniões diversas se expressem neste lugar de encontros e diálogos.


Seu formato digital possibilita apresentar algo vivo e reconfigurado a cada dia, registrando os passos dos dias anteriores. Quem idealiza, quem colabora, e quem lê se comunica de forma direta mobilizando uma corrente de pessoas que escolheram a dança como modo de vida ou que encontram nessa arte eco do tempo presente.


Uma semana antes do aniversário, convidei Flávia e Marcela para uma conversa sobre as ideias que regeram essa criação. Estivemos juntas em várias ocasiões da nossa trajetória, e em cada momento descobrimos mundos em movimento. De longe ou de perto, estamos conectadas por esta grande rede de arte.


Confira os melhores trechos da entrevista, na qual vocês poderão saber curiosidades sobre os bastidores da criação da Revista e da trajetória das idealizadoras.


O que moveu vocês a criarem uma revista de dança na internet?


Marcela: Quando trabalhávamos juntas, tínhamos muitas ideias de pauta e formas para que a dança se transformasse em notícia, em alguns casos eram matérias que queríamos ler, em outros, matérias que gostaríamos de escrever. Brincávamos que éramos a FM Assessoria (FM das ondas sonoras porque conseguíamos fazer barulho, mas também uma brincadeira com as iniciais dos nossos nomes) e que aquele era o nosso plano B porque a dança tinha muito assunto. Juntamos nossos blogs (Tudo É Dança e Odileodette) num espaço virtual e começamos a escrever matérias de dança que sentíamos falta no jornalismo convencional. O tempo passou, a Flávia seguiu outros caminhos, eu continuei no mesmo emprego, mas colocamos o plano B em prática, abrimos a FM Editora e Propaganda, que é hoje a Revista de Dança.


Flávia: Imaginamos um espaço para escrever sobre dança acessível ao público em geral, que pudesse conectar não somente as questões de uma edição, mas dar acesso a todo o conteúdo em qualquer momento. As matérias não “se perdem” no mês de impressão, ou seja, uma matéria está sempre disponível.


Marcela: Optamos por um produto que fosse diário, com publicações de segunda a sexta-feira.


Flávia: A internet foi uma opção natural.


Vocês se inspiraram em alguma outra revista?


Flávia: Em dança, vimos muitas edições internacionais e nacionais impressas. Lemos e vimos edições da antiga Dançar, também vimos a francesa Danser, a americana Dance Magazine. Também observamos mais atentamente sites e revistas de outras áreas como a Piauí, a edição semanal inglesa The Observer, o site de moda da francesa Garance Doré, por exemplo.


Marcela: Analisamos sites e o que mais gostamos como estilo foi o da Ópera de Paris. O site é clean e apresenta os assuntos de dança de forma jornalística.


Como vocês dividiram as seções da revista e por quê?


Flávia: Começamos a esboçar o universo da dança e queríamos contemplá-lo de forma ampla. Algumas seções são previsíveis como Entrevista, Reportagens, Críticas e Ensaios, Editorial. Como eu e a Marcela trabalhamos juntas nos bastidores de uma companhia (a São Paulo Companhia de Dança), também era importante para nós mostrarmos um pouco da construção do universo da dança: a importância do professor, o comportamento do meio, as audições, a voz do artista. Foi assim que fomos costurando e dividindo as seções.


Marcela: Fizemos questão de dividir por estilos de texto para que as pessoas entendam que é uma revista jornalística sobre dança com espaço para diferentes reflexões, assim temos Críticas e Ensaios, Reportagem, Entrevista, Retrato, Comportamento, Legado, Sala de Aula, Lançamento, Em Cena. Nossos blogs se transformaram em colunas, Tudo É Dança e Odileodette, que nos permitem textos mais autorais. A isso se somou Tititi e Blablablá, uma coluna social; Primeira Pessoa, na qual convidamos nomes para escrever um texto em primeira pessoa, e Bolsa de Bailarina, uma brincadeira para saber o que o bailarino carrega na bolsa. As seções se completam com a área de serviços nos links Agenda e Audições. É a dança de diferentes formas, na cena e fora dela.


Durante este primeiro ano qual foi o maior desafio?


Marcela: Transformar um projeto que estava no papel em realidade e publicar uma matéria por dia tentando dar conta da diversidade de temas agregando o maior número de colaboradores para escreverem sobre dança. Para mim, o desafio pessoal foi o de encontrar um ritmo para conciliar todas as minhas atividades com o tempo de reflexão para poder escrever.


Flávia: Fazer a Revista acontecer, chegar às pessoas, criar sua voz e seu trânsito entre todos os possíveis leitores, com a qualidade que desejávamos de texto e de arte.


Qual a característica mais marcante para cada uma de vocês da Revista de Dança?


Flávia: O desejo de dar espaço à diversidade de vozes da dança espalhada pelo Brasil em nossas matérias foi além do que eu esperava. Há muita coisa acontecendo, muita gente trabalhando com dança. Fiquei muito contente em ver isso.


Marcela: Ser plural, em todos os sentidos. Uma cobertura que tenta dar conta da pluralidade da dança do Brasil, às vezes invisível aos nossos olhos. A Revista não abrange só dança clássica ou contemporânea. Falamos de jazz, sapateado, musicais, jongo, danças tradicionais. Contamos histórias de pessoas que fazem da dança o seu ofício e também provocamos outros jornalistas a escreverem sobre esta arte. Ao longo desse ano, contamos com consultores, que olham para dança de diferentes formas e dividem isso com a gente; dos colaboradores espalhados pelas diversas regiões do país para trazer o Brasil para dentro do site e os correspondentes, para também olharmos a produção da dança no exterior.


Tem um caso marcante nesse ano (engraçado ou curioso ou difícil)?


Marcela: Colocar a Revista de Dança no ar foi muito engraçado. A Flávia escolheu a data: dia 9/03 e eu queria provocar certa ansiedade para que as pessoas acessassem o site naquele dia. Tive a ideia de brincar com o horário e resolvi que iríamos entrar no ar, às 9h03. Fizemos teasers nas redes sociais, acertamos os nossos relógios, ligamos para o desenvolvedor do site para perguntar se o relógio dele estava certo, reunimos a equipe para um café da manhã, e às 9h03 em ponto, nada. Apertávamos o F5 para atualizar a tela do computador e nada. Foram 20 segundos (eternos) de angústia, mas ela entrou no ar na hora certa e com muitos acessos. A Flávia estava grávida de nove meses do Antônio e quase passou mal, sumiu, foi para o quarto dela! Hoje não me deixam inventar mais nada com horário em minutos… Eu bem que queria fazer um suspense com esse especial de aniversário (risos).


Flávia: Há muita gente que ainda nos pergunta: Como faço para assinar? Tem versão impressa? Quase semanalmente, respondemos mensagens avisando que a Revista é gratuita, tem matéria nova todos os dias, com um olhar novo. É só acessar.


Vocês tem ideia do número de acessos por dia?


Flávia: Em média, 200 mil acessos por mês.


Como é o dia a dia do editor da Revista de Dança?


Flávia: Como temos matéria diariamente, procuramos programar o mês inteiro para termos agilidade no dia a dia e, depois, semanalmente, numa grande reunião de pauta vemos o que entra por conta de agenda e para criar uma dinâmica: um dia matéria longa, no outro, mais curta; um dia entrevista, outro uma coluna social, e assim por diante.


Marcela: Conferimos a agenda, as matérias que precisam entrar por conta de data e como elas combinam com outros textos, chamados no jornalismo de pautas frias, mais atemporais. Assim temos um planejamento semanal para dar um gráfico diversificado de assuntos para o leitor.


Flávia: E depois das reuniões de pauta entro em contato com os repórteres, fotógrafos, ilustradores e crio um fluxo para receber as matérias. E, claro, a leitura das matérias, checar as informações, procurar datas, estas coisas. De modo geral, o trabalho é esse.


Marcela: A Flávia edita, eu palpito!


Flávia: Procuro deixar as matérias prontas uma semana antes e mando para a Marcela ler para ver se não passou nada. No dia de colocar no ar, envio para o programador do site o texto com as fotos, os créditos e as legendas. Depois envio as alterações da página principal. Quando tudo está no ar, começamos o movimento nas redes sociais.


Quantos colaboradores a Revista teve neste primeiro ano?


Flávia: Foram cerca de 25 jornalistas, dez fotógrafos, dois editores, três ilustradores, uma produtora, onze consultores, cinco programadores, dois diretores de arte, dez grupos de dança, entre bailarinos e coreógrafos, no projeto do Hospital Pequeno Príncipe, uma estagiária, dois advogados, uma equipe de contadores (para este tipo de projeto tudo precisa ser muito cuidadoso) e um prestador de contas ao Minc.


O apoiador motivou vocês a realizarem ações de dança no hospital Pequeno Príncipe (HPP) em Curitiba como contrapartidas para o apoio que eles deram para Revista de Dança em 2012.


Conte como foram os encontros e o que você diria ser a importância dessa ação realizada?


Marcela: Mês a mês, quando eu ia ao hospital para as apresentações dos nossos convidados (Jair Moraes, Erika Novachi, Christiane Matallo, Balé do Teatro Guaíra e outros) descobria algo novo, reencontrava algumas crianças; e me dava conta de que outras não estavam mais lá. Dividi com eles o que vivo diariamente. Levamos um pouco de dança e recebemos sensações inexplicáveis.


Aprendi a dançar em outro tempo para cada um. A Fabiana Salgueiro, psicóloga, que acompanhou todo o nosso trabalhou no HPP, sempre dizia que se tocássemos somente uma criança com a dança, se brincássemos com uma delas, tínhamos cumprido nossa missão naquele dia. Você aprende a dar valor para coisas pequenas. Os dias no HPP foram os únicos. Lá celebramos a vida em forma de dança.


Qual é a característica do seu público?


Marcela: Percebemos quem lê a Revista de Dança pelos cadastros que recebemos. A maioria é de artistas da dança, escolas, alunos, profissionais, mas também tem espaço para os administradores, economistas. É bacana encontrar essa diversidade nos leitores, mas como é um espaço virtual não conseguimos medir exatamente os perfis, só as localidades. Temos acesso do mundo todo.


Quais as matérias que dão mais ibope?


Flávia: Nossa seção campeã é a audição, que entra no ar toda sexta-feira.


Marcela: As pessoas encontram na Revista um espaço para poder dançar, assim como a gente.

Flávia: Nas matérias, não temos uma regra.


Marcela: Críticas e Ensaios são muito acessadas, Em Cena com as estreias e coberturas de eventos também.


Flávia: Alguns especialistas costumam eleger um dia da semana como melhor ou pior para o site. Com a gente, não funciona. Às vezes, em uma segunda-feira, a Revista tem mais acessos do que no fim de semana. Com as redes sociais e a possibilidade de multiplicação, fica realmente difícil prever um tipo de matéria que funcione. O que, para mim, é muito saudável para um meio de comunicação.


Depois de um ano, quais são os novos desafios?


Flávia: Encontrar um novo modo de mantê-la com colaboradores, o que é fundamental para garantir a pluralidade de nossa estreia. Se conseguirmos um novo patrocínio, já pensamos em algumas alterações mais marcantes para termos ainda mais alcance. De qualquer forma, texto de qualidade é nosso desafio diário.


Marcela: Manter a qualidade, diversidade, periodicidade. Encontrar novos parceiros e a todo tempo encontrar novas formas de dançar.


Como sua história se conecta com a dança?


Flávia: Estudei dança na infância e adolescência na minha cidade natal, Itapeva, interior de São Paulo. Minha segunda professora, Juliana Martins (veja só a coincidência, ela é mãe de um dos advogados da Revista!), foi determinante no meu gosto e na minha aproximação com esta arte. Não apenas por me ensinar, mas por me despertar curiosidade, lançar desejos sobre movimento, me tirar do lugar confortável. Não “peitei” seguir uma carreira de dança literalmente, mas, sinceramente, não tinha o perfil desejado por mim mesma, apesar do esforço (risos). No início, ao escolher o jornalismo, não tive a pretensão de escrever sobre dança, mas foi inevitável depois de um tempo. Descobrir os escritores de dança também foi um grande e prazeroso aprendizado. Assim, fui ensaiando a dançar com as palavras. Comecei a escrever sobre dança em meu primeiro emprego, no Caderno Fim de Semana, da extinta Gazeta Mercantil. Foram cinco anos fazendo reportagens, entrevistas ou críticas quase toda semana. Depois, colaborei para muitos veículos escrevendo sobre dança, Revistas Carta Capital, Bravo!, Época, TPM, o antigo site nominimo, entre outros. Fiz mestrado sobre crítica de dança na PUC|SP. Em uma oficina da Oswald de Andrade, coeditei o livro Na Dança, uma publicação com vários olhares sobre esta arte. No fim de 2008, aceitei o convite para trabalhar na São Paulo Companhia de Dança na área de Comunicação. Também me envolvi com as áreas de Educativo e Memória. Conheci a dança por outros ângulos e amadureci imensamente como profissional. A Revista é o resultado de tudo isso.


Marcela: Comecei a fazer balé clássico aos quatro anos de idade, depois veio jazz, sapateado, flamenco. Prestei faculdade de dança, passei, mas escolhi o jornalismo. Eu sempre quis ser repórter, preciso da palavra escrita. É a minha melhor forma de comunicação. Jiri Kylián fala que coreografa porque o movimento não cabe mais dentro dele. Escrevo por isso, a palavra não cabe mais no meu corpo. Comecei a escrever sobre dança na faculdade impulsionada por uma professora de redação. Depois fiz pós- graduação em Estudos Contemporâneos em Dança na Universidade Federal da Bahia (UFBa) e mestrado em Comunicação e Semiótica na Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP). Trabalhei na redação de um jornal por cinco anos no qual escrevia sobre cultura, mas tinha uma coluna semanal de dança e a editora-chefe da época me fez criar um blog (de dança, claro). Faço júris e críticas em festivais de dança do Brasil, codirijo um Congresso Internacional de Jazz no Brasil que está na quinta edição. Fiz aulas até 2009, quando entrei para o time da São Paulo Companhia de Dança e lá encontrei um mundo profissional no qual quando a cortina abre, todas as pessoas dos bastidores estão no palco. Descobri diferentes áreas para dançar, além da comunicação, veio o educativo, a memória. Não me reconheço sem a dança, sem ela não consigo contar a minha história.


O que a dança é para você?


Flávia: Há um documentário feito por você, Inês, sobre o Luis Arrieta, da série Figuras da Dança que ele começa assim. “Dança é movimento, dança é transformação”. De modo geral, a dança me anima, me entusiasma, não apenas quando vejo um belo espetáculo, mas, principalmente, porque ele me leva a outros lugares, a outros pensamentos, me traz associações intelectuais e me aciona a emoção. Movimento em diversos lugares.


Marcela: É a minha vida. Parece piegas, mas é. É o que me preenche por dentro, o que eu gosto de ver, escrever. É como eu me reconheço.


O que é difícil nessa forma de dançar?


Marcela: Traduzir o movimento de um modo legível, inteligente e ao mesmo tempo poético. A palavra precisa dançar, assim como o gesto, e nem sempre é fácil encontrar uma voz para traduzir o que se viu e se sente. É preciso se reconhecer no texto, caso contrário, reescrevê-lo. É o que a gente faz com a vida. Ensaia, erra, começa de novo, ensaia de novo e vai para o palco. E no dia seguinte começa tudo de novo.


Flávia: O texto é nosso meio de dançar. É ele então, a um só tempo, nossa alegria e preocupação diária. No seu ideal, ele é generoso com o leitor, com clareza e informação, e bem escrito.


O que te move para continuar?


Flávia: A dança.


Marcela: Um movimento que invade meu corpo diariamente e me fazer querer ir além, aprender mais, dialogar com outras frentes. É incrível saber que ainda tenho muito para fazer e todos os dias.





Posts Em Destaque
Posts em breve
Fique ligado...
Posts Recentes
Arquivo
Procurar por tags
Siga
  • Facebook Basic Square
  • Twitter Basic Square
  • Google+ Basic Square
  • LinkedIn - Black Circle
  • Instagram - Black Circle
  • Facebook - Black Circle

CONECTE-SE!