O sol de Regina Advento

Texto originalmente publicado na Revista de Dança


No filme Pina (2011), de Wim Wenders, com estreia prevista para o próximo dia 23 nos cinemas nacionais, a bailarina brasileira Regina Advento, 47 anos, faz um depoimento em que revela a rapidez da partida da coreógrafa alemã, com quem trabalhou cerca de vinte anos, e oferece uma sequência, que ela mesmo diz, com um pouco de leveza. O diretor faz isso em uma bela paisagem e Regina parece flutuar entre cadeiras. É uma imagem interessante, principalmente, ao saber da relação entre as duas, como Regina conta nesta entrevista.

Regina começou a dançar menina, em Belo Horizonte, nos projetos do Grupo Corpo. Tinha reações agressivas e uma parte de sua terapia era tratada com a dança. A aproximação mudou o rumo de sua vida. Foi do elenco do grupo mineiro de 1984 a 1990. Depois partiu para a Alemanha. Desde 1993, está na companhia de Pina Bausch. Filha de pedreiro, sinalizou que foi tratada com preconceito, no Brasil e em outros países, no início da carreira. Nada disso, no entanto, impediu que seguisse e se transformasse em uma das referências para a dança no País. Casou-se com um alemão, tem uma filha de 12 anos e hoje procura novos rumos para sua carreira.


Foto: Ulli Weiss

Cena de Água, 2001, peça inspirada no Brasil

Foto: Iko Freese

Regina Advento em Água

Foto: Gert Weigelt

Em cena de Masurca Fogo, 1996

Como é para você estar em cena hoje?

Regina Advento: Mais madura. É mais difícil, né? Antigamente eu dançava mais intuitivamente, deixava acontecer e hoje em dia eu tenho que tomar cuidado, senão eu me machuco, em termos de movimento. Principalmente porque eu me vejo como bailarina, sempre que eu penso, eu penso como bailarina. Tenho que ter muito cuidado. Eu me acho mais madura porque eu estou conscientemente mais presente, não é tão intuitivo.


Esse corpo já tem história, não é?

Regina Advento: Sim, mas meu corpo vai ficando mais duro. É diferente, o controle muscular é completamente diferente. Na verdade é bem difícil (risos). A primeira mudança vem depois dos 35 mais ou menos, e depois que eu passei dos 40, vi outra mudança.


Em cena, não isso não transparece…

Regina Advento: Eu trabalho muito para manter ainda um pouco da flexibilidade, faço muito alongamento muscular porque vai ficando duro e dolorido, na verdade. Mas eu cuido. E também tenho uma alimentação saudável, não bebo, não fumo, bebo muito chá, muita água… (risos)


Vida de bailarina…

Regina Advento: Eu não deixo de comer as coisas. Não faço dieta. Eu como doce, carne, na Alemanha eu não gosto da carne, quase não como, mas no Brasil como muita carne. Não é uma dieta. É a escolha do alimento um pouco mais biológico, vejo de onde vem, estas coisas.



Você está na Alemanha há quanto tempo?

Regina Advento: Faz vinte anos.


Como foi sua passagem pelo Grupo Corpo?

Regina Advento: No Corpo, eu entrei com 10 anos, com 16, eu dançava no grupo Circo, grupo amador do Corpo, e dei aulas para iniciantes até os 18 anos. Quando terminei a escola, comecei a dançar profissionalmente.


Você ainda sente emoção para entrar no palco? Para estar em cena?

Regina Advento: Eu fico mais nervosa do que antes (risos). Não sei por quê. Antigamente, quando eu dançava no Corpo, era tão relaxada, que as pessoas brincam até hoje comigo. Eu não me preparava antes para entrar, ficava sentada, contando a música. Na Pina, não contamos a música, não tem um, dois, três. Tem outra forma de usar a música. Esse tipo de coisa, de não contar a música, não faço de jeito nenhum, eu fico muito mais tempo atenta principalmente quando danço. Não só quando danço, quando ensaio também. Estou mais concentrada, tomo mais tempo para me encontrar e acho também porque hoje em dia eu tenho muito mais coisas na cabeça, coisas de organização, de casa, de filho.


Poderia dar mais exemplos?

Regina Advento: Quando dancei no Corpo, a perna era muito importante, o movimento de corpo, de “atacar”. Para a Pina, os movimentos da mão, dos dedos, do cotovelo eram importantes, tem que usar todas as juntas, explorar todo movimento que o corpo pode dar. Isso aprendi aos poucos, a cada produção. Aprendi muito observando as pessoas, quanto os movimentos são bonitos, coisas tão simples. Quando cheguei, na primeira produção que fiz, a Pina nos deu pelo menos uns setenta movimentos, todos de braço. Podíamos brincar, conhecer os movimentos para fazer a nossa coreografia, que depois virariam a coreografia da companhia. Para o estilo da Pina, fui aprendendo a me moldar. Na época, quando entrei, as coreografias usavam mais braço. Hoje em dia não acontece. A geração dos mais novos é mais virtuosa, salta mais, principalmente os homens.

E como tem sido hoje estar na companhia depois da morte da Pina, em 2009? Como você olha para o futuro da companhia? Regina Advento: Mesmo quando a Pina estava viva, eu estava procurando novos caminhos. Depois de 17 anos, você acaba fazendo praticamente as mesmas coisas, como se fosse um artista de televisão que faz sempre o papel de vilão, sai de uma novela, entra na outra e faz a mesma coisa praticamente. Era muito difícil mudar nossa cor. A Pina nos classificava como cor, ela pintava os quadros e fazia as introduções, mas cada um tinha uma cor. Com isso, ela sabia o caráter da pessoa; eu sempre fazia esse caráter jovem, brincalhão, pouco sedutor, outras pessoas já falavam mais, eram mais teatrais. Mesmo o estilo da música, no fim, era bem parecido. Eu já precisava de coisas novas. Comecei a buscar coisas fora da companhia, comecei a cantar, montei uma banda, fiz um programa de um ano e meio em um café. Depois trabalhei com quatro músicos em uma atração que se chamava Bossa Sempre Nova. Nesse programa, conheci tantos músicos, que eu terminei a banda e eles me chamam para fazer outros projetos.


Para Pina, qual era sua cor?

Regina Advento: Eu sempre falava, a Pina me vê como um ‘sol brasileiro’, o sol, eu estou sempre rindo.


Você cantava Bossa Nova?

Regina Advento: Cantava Bossa Nova e também Marisa Monte, Gilberto Gil, Caetano, Djavan, eu fazia uma miscelânea. A ideia era cada mês fazer um programa novo. Também fiz um repertório usando jazz.


Como você olha o futuro?

Regina Advento: Estou procurando meu próprio caminho. Para mim, a resposta que vale é essa. Na verdade, a companhia está se estruturando, estamos sozinhos sem a Pina.


Temos a impressão de que os bailarinos que estavam com a Pina Bausch agora ficaram como referências de sua obra para a companhia e para o mundo da dança, isso realmente acontece ou isso é uma impressão de quem está vendo de longe?

Regina Advento: O que aconteceu, para mim, foi uma coisa muito clara: nós temos uma responsabilidade agora de cuidar desse repertório, porque trabalhávamos com ela, às vezes, individualmente. Ela falava coisas para cada um individualmente. Temos que manter isso vivo. Um dos diretores, o Robert Sturm, disse “não esqueçam os detalhes que a Pina falou para vocês, comecem a escrever essas coisas, porque são informações e detalhes muito importantes para uma pessoa de fora, pedidos de correções, etc.”


Tem alguma coisa que ela lhe disse e a marcou?

Regina Advento: Eu tinha uma relação muito franca com a Pina. Eu chegava para ela e dava minha opinião de determinadas coisas. Mas também, às vezes, ela era muito dura comigo: a forma de me corrigir, de falar comigo. Com outras pessoas, ela ia lá com cuidado, ficava no canto, muito séria para a pessoa não ficar sem graça ou ofendida. Com cada um ela tinha uma relação diferente. Teve uma vez que eu virei para ela e disse: “Por que você fala assim com a gente? Por que você fala desse jeito? Ela olhou para mim e falou: “Isso é um privilégio, Regina”.

Você gostaria de exercer alguma função na companhia, como ensaiadora?

Regina Advento: Não, não, não (risos). Quando a Pina me pediu para ensinar, eu não quis. Eu não tenho essa ambição de virar ensaiadora, de virar assistente. Não me vejo, eu tenho esse trajeto dentro da companhia e eu busco minhas coisas fora, preciso sair. Mesmo quando eu estava no Grupo Corpo, sempre tive contato com o pessoal de teatro, já cantava no coral do Sesi, eu buscava coisas diferentes. Já fui convidada duas vezes para fazer coreografias, mas com pessoas que não tem nada a ver com dança, mais ou menos que o Ivaldo Bertazzo faz no Brasil. Esse tipo de coisa eu faço porque tomo a função de coreógrafa, faço a produção toda, a iluminação,

imagino o figurino. Minha última produção tinha trinta pessoas.

Para finalizar, eu tenho que sair, não quero virar diretora de jeito nenhum, pelo amor de Deus.


E como se chamam os seus espetáculos?

Regina Advento: O primeiro chamava Templo da felicidade e o outro Inspirar – tudo o que você deseja. Foram trabalhos que eu fiz junto com outro brasileiro, Camilo Milton, e não trabalhávamos todos os dia porque as pessoas têm seus trabalhos formais. Quando nos encontrávamos, um período usamos o corpo, como se fosse um body trainning, mais ou menos estruturada como uma aula de balé – eles adoravam fazer balé. Fazíamos uma aulinha de dança com eles e, pelo processo parecido com o que a Pina usava, fomos colhendo material, filmando. Depois de um tempo, unimos o material e fizemos a produção.


Como é o dia a dia de vocês?

Regina Advento: O ritmo normal é: segunda-feira é livre, de terça à sexta, trabalhamos das 10h às 14h e de 18h às 22h. No sábado, depende do que precisa, às vezes no mesmo horário da semana ou temos um horário longo que vai até às 16h mais ou menos. Isso quando não tem espetáculo. Quando tem espetáculo, começa na terça-feira, quarta vamos para o teatro e vamos até domingo. Quando tem espetáculo, os ensaios retomam terça-feira à noite.


Como é seu contrato, anual como em outras companhias?

Regina Advento – Não. Ele se renova a cada ano, automaticamente. Caso eles queiram mandar alguém embora, eu quase nunca vi isto aqui nesses quase vinte anos, a companhia arruma uma outra alternativa, diferente. Chega uma época, eu não sei quanto tempo, que você não é mais mandado embora.


Mas é uma aposentadoria?

Regina Advento: Na Alemanha, eu tenho que trabalhar até os setenta e cinco anos. O teatro tem um seguro que é assim: um seguro de palco, que uma parte é descontado do seu salário e outra parte a instituição paga. Com isso, se você resolve parar de dançar antes dos 40 anos, você recebe esse dinheiro em mãos. Muitos bailarinos fazem isso, mas você não podem continuar dançando. É um dinheiro que você pode usar para fazer uma escola, para se estruturar profissionalmente na vida. Se você não faz isso até os quarenta anos, isso vai ser transformado em aposentadoria, mas não é a aposentadoria normal, é uma segunda aposentadoria.

Você tem se reestruturado neste sentido também?

Regina Advento: Eu já estou me reestruturando também, estou fazendo um curso de pedagogia curativa através da dança, que vou terminar em junho deste ano. Se eu quiser continuar, eu faço mais dois anos de dança-terapia. Uma coisa que estou buscando, porque eu também comecei a fazer dança por causa de um temperamento agressivo e uma parte da terapia era fazer aulas, é poder dar e ajudar crianças por meio da dança. Estou achando o curso muito interessante, ele é voltado a crianças e idosos.


Quantos filhos você tem? Eles dançam?

Regina Advento: Eu tenho uma filha de 12 anos que se chama Jasmin. Ela faz um monte de coisa. Voltou a fazer balé agora, já fez equitação, mas ela fazia muito esporte, fazia ginástica olímpica, depois mudou para atletismo e há três anos toca|aprende violoncello.


Ela fala português?

Regina Advento: Eu sempre falei com ela em português, desde pequenininha. Quando ela vai ao Brasil, fala português, quando volta, não quer mais falar. Ela fica nesse vai e vem. Quando falo em português, ela responde em alemão, mas se combinamos de falar português, ela se esforça. Mas, na Alemanha, muito cedo as crianças começam a aprender outras línguas. Ela tem inglês e agora começou francês.

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