A vida como sala de ensaio

Texto originalmente publicado na Revista de Dança


Há alguns dias que esperava ansiosamente para entrevistar o coreógrafo tcheco Jirí Kylián. Na verdade, “uns dias” é um modo delicado de falar, espero para entrevistá-lo desde 2013, quando a São Paulo Companhia de Dança, onde sou coordenadora de Comunicação e Educativo, estreou Petite Mort, mas nos contratempos da correria da vida dele, a entrevista acabou não acontecendo. Quando soube que a SPCD iria fazer Indigo Rose, contei os meses. Era uma noite Kylián e com certeza a entrevista aconteceria e cruzei os dedos para que eu pudesse fazer.


Em 2010, eu o entrevistei numa madrugada, com cinco horas de diferença de fuso do Brasil para a Holanda. Claro que não dormi porque fiquei com medo da minha voz não sair ou ficar aquela voz de sono péssima; revisei as perguntas milhares de vezes, coloquei um gravador no telefone e esperei ansiosamente pelas quatro da manhã! Ele foi doce, suave, um poeta. A entrevista era sobre Sechs Tanze, mas ouvi dele umas das coisas mais lindas sobre a arte da criação. Perguntei por que ele coreografava tanto e ele respondeu: “Eu coreografo porque o movimento não cabe mais dentro de mim.” Quase quis entrar do outro lado da linha e dizer o quanto ele é incrível. Mas me segurei. O gravador não funcionou, só gravou a minha voz, mas a dele ficou bem gravada dentro de mim. Lembro palavra depois de cada palavra daquela sexta-feira fria de agosto.


Quando fui para a Haia, na Holanda, em 2012 – a SPCD estava participando do Holland Dance Festival – ele estava na cidade, mas resfriado, assim não foi a nenhum espetáculo do festival, mesmo recebendo algumas homenagens. (Não tinha outra época para ficar resfriado, pelo amor de Deus!?). Achei que essa fase de tiete já tinha passado na minha vida, mas confesso que eu gostaria de saber como ele é em sala de aula, como toca um bailarino. Como fala com ele? Como se move? Como mexe em uma parte da obra que não deu certo? Confesso que eu queria saber, ou melhor, (vi)ver.


Ele me toca pelo modo que organiza o movimento. Pelo toque, pela ironia, pela dualidade. É um mestre dos duos, dos conjuntos, das entradas e saídas e nos mostra quantas portas ou frentes um palco pode ter. Suas obras apresentam tantas possibilidades de movimento que quase reinventamos um modo de olhar e de sentir. Ele fala pelo gesto, mas a palavra que acompanha a obra é quase tão forte quanto ele. Talvez seja por isso que eu me apaixone…a cada vez.


Parte desta entrevista ganha voz hoje, aqui na Revista de Dança (outras coisas estão publicadas no programa de sala da SPCD). O bate-papo foi incrível. Tenho certeza de que ele não se lembrava de mim, embora tenha falado que a gente não se falava há um bom tempo. Falamos das obras, claro, e da sua mãe que com 103 anos que mora sozinha. E, entre tantos lindos poemas, uma frase me marcou: “Temos que fazer o que a gente mais gosta para encontrar o prazer de viver. Se você gosta de dançar, dance o melhor que puder. Se você, por exemplo, gostar de escrever, escreva o melhor texto que puder. Só faça direito”.


Eu não escrevia um texto para esta coluna há mais de dois anos. É tempo demais. Escrevi críticas, fiz entrevistas, mas nada que me movesse a dividir um sentimento maior com vocês. Kylián me fez viver esse momento e um novo texto para o Tudo É Dança nasceu. O que ele talvez não saiba é que exatamente a dança e o texto me acordam todo dia para começar um sonho novo e para sempre tentar fazer melhor do que ontem. É a vida como uma sala de ensaio.

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