E a Repetto… criou a sapatilha

Por Jordana Viotto, de Paris, com colaboração de Flávia Fontes Oliveira e Marcela Benvegnu.

Vitrine da loja, sofisticação e conforto Brigitte Bardot e as famosas sapatilhas

Texto originalmente publicado na Revista de Dança

Em 1956, Brigitte Bardot estrelou Et Dieu…créa la femme (E Deus…criou a mulher), filme de Roger Vadim, que a tornaria o misto de sensualidade, beleza e perdição pelo qual ficou mundialmente conhecida. Nele, ela veste os primeiros pares da sapatilha feitas por Rose Repetto sob sua encomenda. Se o filme a alçou ao estrelato, com o tempo, transformou o calçado, uma sapatilha Cendrillon, em objeto de desejo.


Consta que Bardot fez cerca de doze anos de balé e gostaria de andar de sapatilhas longe das salas de aula. Um dos laços mais duradouros entre dança e moda estava dado. A partir de então, os modelos imitando os sapatos de sala de ensaio não sairiam mais das ruas. “É dança na rua”, como traduz Michael Mainan, presidente da marca no País, às vésperas de inaugurar a primeira loja própria da Repetto em São Paulo, no Shopping Cidade Jardim.


A novidade de trazer a marca ao Brasil foi anunciada pela responsável do departamento de dança da empresa, Dorothée Blacher, que recebeu a Revista da Dança no escritório da Repetto – um amplo imóvel no primeiro andar de um requintado edifício de Paris, próximo à avenida Champs Elysées. O showroom, local da primeira parte desta entrevista, é inspirado no universo ao qual a Repetto se dedica desde 1947: trata-se de uma ampla sala com piso de madeira, barras e espelhos em suas paredes. Nas laterais, as araras chamam atenção pelo dégradée dos collants pendurados de um lado e da sobriedade cinza e preta das roupas de ensaio do outro.


O primeiro ponto paulistano também já tem corpo e segue o mesmo ambiente. “A loja tem uma vitrine grande, com barras e clima da dança”, disse Mainan, em São Paulo, quando recebeu novamente a Revista de Dança. “Iremos oferecer ao público sapatilhas de ponta, de meia-ponta, sapatos de jazz, collants, kits para coques e uma diversidade de produtos para dança. Claro que teremos bolsas e acessórios, mas o que nos interessa é a dança. A dança é o motivo pelo qual estamos aqui. É o que nos move”, completa.


ANTES DE BARDOT, PETIT – A Repetto, antes de Bardot, nasceu de uma sugestão de Roland Petit (1924-2011), um grande artista da dança francês, filho de Rose Repetto, para que a mãe fabricasse sapatilhas para ele e consequentemente para seus amigos, como Rudolf Nureyev (1938-1993). Petit queria conforto e foi o que Rose conseguiu dar ao filho. “A sapatilha tem a costura da sola do sapato de cabeça para baixo, ou seja, em torno do pé e não embaixo dele”, revela Mainan. Vislumbrando um mercado ascendente de bailarinos que queriam o mesmo, Rose abandonou o café onde trabalhava em Montmartre para dedicar-se às sapatilhas.


A primeira loja da Repetto, na rue de La Paix, em Paris, ainda está no mesmo endereço e essa essência deve reverberar aqui. Um possível sinal de que o país ganha mais importância no repertório internacional da marca, no mundo da dança da sala de ensaio e da dança diária das ruas.


TRADIÇÃO – A Repetto surgiu em 1947, com dedicação ao universo da dança e já foi usada por grandes nomes da dança como Maurice Béjart (1927-2007) e Mikhail Barysnikov. Há uma década e meia, a marca apostou na visibilidade da moda da dança na rua para garantir sua sobrevivência. Em 1999, quase à falência, foi comprada por Jean-Marc Gaucher, que havia sido responsável pela americana Reebok na França. O novo presidente apostou em duas frentes de trabalho – de um lado, a continuação do legado da fundadora, Rose Repetto, falecida em 1984, e de outro, uma abertura pelo caminho da diversificação.


Foi assim que a marca se tornou um ícone também fora das óperas e teatros, com bolsas e sapatos de vários tipos e parcerias com estilistas famosos, como Yohji Yamamoto, Karl Lagerfeld e Issey Miyake.


A gestão atual provocou diversas mudanças na empresa, mas não transformou o processo de fabricação de sapatilhas (veja box nesta página). Até hoje ele é realizado artesanalmente em uma unidade inaugurada ainda por Rose, na pequena Saint Medard d’Excideuil, a 400 quilômetros de Paris.


Esse savoir-faire é tão importante para a empresa que, no início de 2012, criou uma escola próxima à fábrica com o objetivo de transmitir o conhecimento a novas gerações e formar mão de obra para o futuro.


Outra preocupação é a de adaptar suas criações às inovações e descobertas em termos de ergonomia. Em 2005, a empresa firmou uma parceria com a Compiègne University of Technology a fim de desenvolver um modelo de sapatilha que reduzisse o som do contato do bailarino com o solo e a dor nos pés. Desde então, o trabalho em binômio continua, com o objetivo de obedecer, ao mesmo tempo, a critérios artísticos e ergonômicos.


Orquestrar duas disciplinas é tarefa demorada, o que faz com que cada linha de sapatilhas leve de dois a três anos para ser lançada, um ciclo longo se comparado ao de outros itens – mesmo dentro da própria Repetto. Esse desenvolvimento permite que a empresa fabrique itens que podem ser personalizados, da dureza e largura da ponta à cor. Bailarinos de companhias com as quais a Repetto tem parceria podem solicitar esses modelos e não pagam muito mais caro do que os 60 euros em média dos modelos padrão. “Não ganhamos dinheiro com isso, ao contrário. Para nós, contudo, é investimento na parceria e na marca”, diz Dorothée Blacher.




Dançar nas ruas Vitrine da loja, sofisticação e conforto

Como as sapatilhas Repetto são feitas?

1. A sola é cortada a partir de grandes placas de couro, de acordo com o tamanho e o modelo. Em seguida, essas informações são impressas na superfície.


2. A parte de tecido, feita em cetim e algodão, é fixada sobre a forma, com um suporte na ponta a fim de definir sua forma e, no caso das sapatilhas de ponta, a altura.


3. As dobraduras no tecido das sapatilhas são feitas manualmente, uma a uma, e costuradas.


4. A ponta, quando necessária, é feita de um tipo de papel e uma cola especial 100% natural. Depois de seca, a ponta é inserida na sapatilha e prensada com a ajuda de uma máquina.


5. Depois do processo completo, cada par passa por uma última inspeção manual.





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