Um modo brasileiro de dançar: Grupo Corpo, 40 anos

Texto originalmente publicado na Revista de Dança


Estreias duplas não são comuns na trajetória do Grupo Corpo – a última foi em 1991, quando dançaram Três Concertos e Variações Enigma, de Rodrigo Pederneiras, até hoje coreógrafo residente da companhia. No ano em que comemora 40 anos, a situação parece mudar. Amanhã, quarta-feira (dia 5 de agosto), no Palácio das Artes, em Belo Horizonte – palco onde Maria Maria (1976), balé que inaugura a trajetória do Grupo, apresentou-se pela primeira vez – a estreia “dupla” é também um anúncio do que, ou melhor, de quem vem por aí para somar sua assinatura à da companhia. Cassi Abranches, bailarina do Corpo por 12 anos, passa para o outro lado da cena para escrever sua história e cria sua primeira obra para o Corpo: Suíte Branca, com música de Samuel Rosa, que abre a noite, ao lado de Dança Sinfônica, de Rodrigo, com trilha de Marco Antônio Guimarães.

Fotos: José Luiz Pederneiras

Suíte Branca: obra de Cassi Abranches para o grupo.

Dança Sinfônica: um modo de dançar brasileiro

Suíte Branca aposta na renovação


SUÍTE – O convite veio pelas mãos do diretor artístico do Grupo, Paulo Pederneiras, que vinha acompanhando suas criações há tempos. “Ele me chamou e disse que eles estavam me olhando e gostavam muito do que estava fazendo, do meu modo de criar, e o momento certo de trazer um outro tipo de frescor ao Corpo era nos 40 anos. É uma responsabilidade enorme”, fala loira, como Cassi é carinhosamente chamada por Rodrigo, que em 2012 já anunciava a sucessão. (leia matéria aqui).


Como Rodrigo, ela parte da música para criar. “O maior legado que pude absorver do Rodrigo, além do movimento, é essa apropriação da música. Quando fui conversar com o Paulo sobre isso, ele me disse que estava pensando no Samuel Rosa para assinar a trilha. Gostei bastante porque é algo da minha geração, tem um rock bacana. A peça foi composta pelo Samuel e gravada pelo Skank. Além dessa pegada rock and roll da música, queria uma atitude assim na cena, algo jovem e acho que deu certo. O balé faz um contraponto com a solenidade dos 40 anos em Dança Sinfônica”, conta.


O conceito de Paulo para Suíte Branca vai além do palco, cenário, figurinos e chão branco. Cassi teve “carta branca” para criar. “Ele me disse: ‘Vou te dar tudo branco para que você possa começar a desenhar sua história. Vai lá e experimenta’”, conta a coreógrafa. “O nome Suíte é porque cada vez que eu recebia uma música do Samuel ele dizia que era a suíte 1, 5, 7 e o Branca por conta dessa liberdade que o Paulo me deu”, completa. “Estou numa companhia que vivi grande parte da minha trajetória como bailarina, dá um frio na barriga, tem um peso, mas estou aberta para tudo”.


O time de criativos de Paulo, se manteve na criação de Cassi para a Companhia. A luz do diretor artístico ganhou um parceiro, Gabriel Pederneiras, que há alguns anos já assina como iluminador – ele é filho de Rodrigo e marido de Cassi –, os figurinos são de Freusa Zechmeister e o cenário do próprio Paulo. A equipe se repete em Dança Sinfônica.


“O elenco está renovado, mas dancei com alguns deles. Criamos um convívio e eu já sabia o material humano que teria para trabalhar. Tivemos dois meses para criar e dividi o tempo com o Rodrigo, que também estava coreografando. Os bailarinos faziam aula de balé clássico das 9h às 10h30 e depois o Rodrigo entrava para criar e ensaiar. Eu pegava o elenco por volta das 15h30 e seguia com eles de segunda à sexta-feira até às 17h30”, conta Cassi. A obra para os 21 bailarinos tem 32 minutos. “Isso foi uma ‘safadeza’ do Samuel. Pedimos 25 minutos e ele criou 32 e eu coreografei”, conta rindo. “Agora vamos estrear. O primeiro aval tem que ser meu, do que estou sentindo, fazendo. Acredito na dança e a hora de ir para o palco é agora”, completa.TEMPO E MOVIMENTO – Aos oito anos, Rodrigo Pederneiras ouvia Tchaikovsky (1840-1893) e Bach (1684-1750), este último seu compositor favorito. Aos 12, tocava bateria e ouvia Beatles. Mas, aos 15, ao ver sua irmã Miriam em uma apresentação de balé clássico na escola de Marilene Martins (1935), em Belo Horizonte, soube o que queria fazer: viver de dança.A movimentação de Rodrigo parte antes de qualquer intervalo da sua relação com a música. Ele faz contrapontos. Divide, subdivide os tempos e os transporta para o movimento.


O gesto parte dos quadris e toma conta dos cantos e bordas do corpo milimetricamente acentuados. É dono do espaço e para isso, não tem uma regra: Bach(1996) é aéreo, Santagustim (2002) e Breu (2007) privilegiam o solo. Benguelê (1998) tem capoeira; Parabelo (1997) baião; e sua mais recente criação Dança Sinfônica(2015) tem memória. “Todo mundo tem coisas engavetadas na sua história, que não foram usadas ou ficaram guardadas no passado. Eu, por exemplo, tinha muitas anotações esquecidas há anos e resolvi misturar isso com ideias novas para esta coreografia”, conta Rodrigo. Dança Sinfônica traz para cena diversas homenagens, para bailarinos que marcaram a história do grupo ou mesmo obras. “Algumas homenagens são mais veladas, outras mais claras. Relembro algumas coisas de Sete ou Oito Peças Para um Balé (1994) e Bach (1996). A memória está presente em todos os sentidos, mas a memória afetiva é maior que a física. Para mim, foi uma obra de muita emoção e acredito que as pessoas devam se emocionar também”, diz. O cenário de Paulo também apresenta certa nostalgia. “São 1.080 imagens da história da companhia em viagens, teatros, bastidores que só podem ser percebidas se vistas de perto. Vamos dançar a nossa história”, completa.Em Sete ou Oito Peças Para um Balé, peça emblemática da companhia, por trazer e refinar o modo de Rodrigo criar, a música foi assinada pelo Uakti (uma obra de Philip Glass também foi usada); em Bach, a trilha foi de Marco Antônio Guimarães, líder do Uakti. Agora em Dança Sinfônica existe um reencontro. “Fizemos o convite para o Marco criar a peça e disse que tínhamos uma enorme vontade de trabalhar com a Orquestra Filarmônica de Minas Gerais, regida pelo maestro Fabio Mechetti. Pedimos uma trilha sinfônica e ninguém melhor que ele para compor”, diz Rodrigo. “Marco criou temas isolados e, depois de gravados, o Uakti entrou para fazer algumas interferências. Os temas passaram a ser pontuados pela música deles”.Dança Sinfônica é a 34a obra de Rodrigo para o Corpo e a 38a do grupo. Ele descobriu que queria coreografar quando depois dos estudos com Marilene Martins, na década de 1970, conheceu o argentino Oscar Araiz com quem posteriormente foi estudar em Buenos Aires, Argentina. Em 1975, aos 19 anos, entrou para o grupo de Araiz, com o qual dançou Agitor Lucens V (1975). Conheceu a técnica de Martha Graham (1894-1991) e, de volta ao Brasil, estudou com nomes como Tatiana Leskova, Hugo Travers, Freddy Romero, Bettina Bellomo, Isabel Santa Rosa. Começou coreografando para companhias experimentais de Belo Horizonte, e diz recorrentemente que “aprendeu a coreografar ouvindo música”.Nesse período, a dança não fazia parte somente da vida de Rodrigo e Miriam, sua irmã, mas de todos os outros irmãos Pederneiras: Paulo, Pedro, José Luiz e Marisa. Como os seis filhos dançavam e optaram por este caminho, convenceram os pais a saírem para um apartamento menor e a residência virou a primeira sede do Grupo Corpo, que nasceu em 1975, em Belo Horizonte, com este nome, pela ideia de corporação, corporativismo.O primeiro trabalho Maria Maria(1976) foi coreografado por Araiz, com música especialmente composta por Milton Nascimento. Rodrigo era bailarino do Grupo e só coreografou para a companhia dois anos depois: Cantares, com música de Marco Antônio Araújo. Foi em 1981 que se tornou coreógrafo residente e o irmão Paulo assumiu a direção artística.Na década de 1980, as criações de Rodrigo eram apresentadas em programas compostos com Maria Maria, o que garantia sucesso à companhia. Sua primeira fase como coreógrafo, que inclui obras como O Último Trem (1980) e Iterânea(1981), baseava-se na narrativa, marcado pelo uso da técnica clássica e por um repertório erudito. Prelúdios (1985) anunciava a primeira mudança, com uma dança mais abstrata e movimentação já flertando com novos caminhos.A partir de 21 (1992), sua forma de traduzir a brasilidade no corpo também foi o início de uma linguagem própria, de acentos e nuances de movimento que pode ser vista em todos seus trabalhos desde então.


“Comecei a ir atrás de uma linguagem que tivesse um sabor, uma cor, um cheiro mais brasileiro”, diz.Com seu modo de enxergar o movimento, a companhia chega aos 40 anos potente e se arriscando no novo. “Tudo passa rápido demais, num estalar de dedos. Eu já tenho dois netos”, diz Rodrigo se referindo a Pedro e Estela, filhos de Cassi e Gabriel. “Agora é hora de a gente comemorar”. O gesto de Rodrigo Pederneiras é uma gramática reconhecida, particular, concreta. Sua trajetória escreve o Brasil no Corpo e se confunde com a história do Grupo que ensinou a dançar. Ou vice-versa.


Serviço: confira na http://revistadedanca.com.br/agenda/


Rodrigo usa a memória como recurso

Trilha de Pederneiras foi gravada pela

Filarmônica de Minas Gerais

Movimentos que saem do quadril e

reverberam pelo espaço: Grupo Corpo



Foto:José Luiz Pederneiras

Dança Sinfônica tem referência aos 40 anos do Grupo

Grupo Corpo em coreografias

1976 – Maria Maria, de Oscar Araiz

1978 – Cantares, de Rodrigo Pederneiras

1980 – O Último Trem, de Oscar Araiz

1981 – Tríptico, de Rodrigo Pederneiras

1981 – Interânea, de Rodrigo Pederneiras

1982 – Reflexos, de Rodrigo Pederneiras

1982 – Noturno, de Rodrigo Pederneiras

1984 – Sonata, de Rodrigo Pederneiras

1985 – Prelúdios, de Rodrigo Pederneiras

1986 – Bachiana, de Rodrigo Pederneiras

1986 – Carlos Gomes Sonata, de Rodrigo Pederneiras

1987 – Canções, de Rodrigo Pederneiras

1987 – Pas du Pont, de Rodrigo Pederneiras

1987 – Duo, de Rodrigo Pederneiras

1988 – Schumann Ballet, de Rodrigo Pederneiras

1988 – Rapsódia, de Rodrigo Pederneiras

1988 – Uakti, de Rodrigo Pederneiras

1988 – Mulheres, de Susanne Linke




Coreografia de Cassi Abranches

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