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História do Jazz no Brasil

July 21, 2020

Desde a sua existência sabe-se que o jazz dance tem suas raízes presas na dança africana, mas na verdade foi uma dança consagrada em território americano. E não foram poucos os coreógrafos que criaram técnicas específicas – uma não menos importante do que a outra, mas sim complementares – para ministrarem aulas do gênero. Isso você já deve saber disso, porque esta é a nossa terceira e última matéria da série sobre jazz dance. Mas se não sabe corre nesses links ( parte 1, parte 2) para poder ler o que já trouxemos aqui no blog.


Mesmo popular, não se pode falar em uma data ou momento específico e pelas mãos de quem o jazz dance surgiu no Brasil. Sabe-se que apareceu no país com grande impacto por meio da televisão, propagandas, abertura de novelas, programas jornalísticos, seriados. Assim, o povo brasileiro teve seu primeiro contato com as formas de expressão deste estilo, que nos anos 80, aqui, foi tido como a mais popular forma de dança. Nesse texto optei por trazer parte da história, são muitas as pessoas que mantem o jazz vivo hoje, mas quem veio antes “da gente”? Uma dança sem passado não tem história. Durante a minha pós-graduação em Estudos Contemporâneos em Dança pela Universidade Federal da Bahia, tive o privilégio de entrevistar duas personalidades que foram responsáveis por grande parte da preservação deste estilo de dança: Joyce Kermann e Roseli Rodrigues.
Joyce Kermann (1950-2006) escreveu história. Ela começou a fazer balé ainda criança na Escola Municipal de Bailado do Theatro Municipal de São Paulo por insistência da família. O balé clássico não lhe agradava muito, mas como era necessário ganhar dinheiro para pagar seus estudos, a solução era a de trabalhar como bailarina. E foi o que ela fez. Aos 13 anos já dançava profissionalmente. Em 1968 prestou vestibular para o curso de comunicação social na USP (Universidade de São Paulo), porém como “o país passava por um período de grande repressão, era perigoso defender ideias e falar demais, preferi trocar de curso e fazer administração”, disse na época.
Depois de formada Joyce achou que iria abandonar a dança e trabalhar na área, mas estava enganada. Trabalhou em uma loja de departamentos quis remodelar os desfiles de moda, e lá resolveu criar algumas sequências de dança para que as modelos tivessem mais movimento na cena. E não demorou muito para que ela fosse vista e convidada para dançar em programas de TV, como Fino da Bossa e Jovem Guarda, da Record. Naquele tempo, os programas contratavam bailarinas com muita facilidade, pois o mercado era escasso e segundo a coreógrafa “existiam em média vinte intérpretes que trabalhavam em todos os lugares: na televisão e fora dela”.
Ainda na década de 70, quando o bailarino Ismael Guiser (1927-2008) foi trabalhar no SBT como coreógrafo de Silvio Santos, Joyce o acompanhou e alguns anos mais tarde, tendo a dança como forma de vida resolveu se mudar para Nova York, Estados Unidos, onde permaneceu por três anos. Lá ministrou aulas em uma das mais conceituadas escolas do gênero, a Steps on Broadway e foi aluna de grandes ícones como Jojo Smith e Frank Hatchett.


De volta ao Brasil em 1976 montou o Joyce Ballet, que se tornou o polo disseminador de talentos de jazz dance em São Paulo pelo fato de visar o intercâmbio entre os profissionais americanos e brasileiros. Nessa época o jazz começou a viver na ponte aérea. Personalidades como Lennie Dale e Jojo Smith eram figuras constantes na escola. Juntos protagonizaram na TV, Brazil Export (1977), show musical com Abelardo Figueiredo, que também contava com a participação de bailarinas como Patty Brown, Yoko Okada, Marilene Silva, Sue Samuels, e outras. Com a ajuda de Dale, ela Joyce montou a primeira companhia de jazz dance do Brasil: Companhia de Dança Joyce Kerrmann. Como a filosofia da escola era promover o intercâmbio entre professores e bailarinos, os alunos puderam entrar em contato com as mais diversas técnicas e estilo, Dale, Redha Bentefour, Fred Benjamin, Smith, Frank Hatchett, Phil Black e Ricky Adamms foram alguns nomes que passaram pelas salas do Joyce Ballet.
Nessa entrevista para o Jornal Dança Brasil ela conta esse processo:

 

E não podemos realmente falar de história no Brasil, sem Lennie. No documentário Dzi Croquettes (eles merecem uma matéria só deles!!!) com roteiro de Tatiana Issa e Raphael Alvarez vale ver como ele se movia:

 

A companhia, cuja linguagem priorizava as raízes do jazz, contava com a participação de 30 pessoas. Em 1983 remontaram West Side Story, musical que coloca em xeque o estilo de dança americano contraposto com o europeu e o converte em uma dança de rua. Para o feito, a coreógrafa, que ficou à frente dos trabalhos do SBT por mais de 30 anos, trouxe Rick Adamms e Phil Genomy, bailarinos que dançaram a versão original do musical no circuito Broadway para assinarem a remontagem.


Para ajudar no orçamento da companhia, além de fazerem convenções, os bailarinos ministravam workshops nos lugares onde se apresentavam. O gasto era alto; eles não podiam viajar de ônibus de uma cidade para outra, pois não conseguiam fechar apresentações em localidades próximas. Do Ceará para Manaus, de Santa Catarina para Bahia, o trajeto tinha que ser aéreo. Como as despesas tinham que ser contidas, todos os bailarinos moravam juntos em um apartamento em São Paulo e, nas viagens embarcavam cerca 20 intérpretes por apresentação; a verba não era suficiente para que todos viajassem.


A real função do Joyce Ballet foi a de projetar talentos. Por exemplo, um concurso de jazz dance como o do filme Embalos de Sábado à Noite foi promovido em São Paulo por Joyce e Jojo Smith, coreógrafo do filme, que veio ao Brasil para assistir a grande final. A vencedora foi a bailarina brasileira Inês Aguiar, que se tornou outro grande nome do jazz dance nos Estados Unidos. A Companhia Joyce Kerrmann teve cinco anos de permanência no cenário da dança brasileira (de 1982 até 1987), período o qual, o jazz dance explodiu no Brasil. A maioria das escolas de dança tinham professores do gênero e na TV via-se jazz dance por todos os lados, dos comerciais às aberturas de novelas.
Não foram poucos os nomes que passaram pelo Joyce Ballet. Entre as personalidades destacam-se Roseli Rodrigues, Mário Nascimento, Maysa Tempesta, Roseli Fioreli, Fernanda Chamma, Rose Calheiros, e outros.
Já na década de 90, Joyce considerava o trabalho de Roseli Rodrigues (1955-2010), da Raça Companhia de Dança de São Paulo, como único. Roseli encontrou a dança aos 21 anos. Na verdade, foi a dança que a encontrou, no segundo ano da faculdade de educação física, na disciplina de dança-educação. “Eu me achava velha demais para dançar. Gostava de assistir dança, mas me apaixonei por aquilo que estava vivenciando no meu corpo”, disse. O responsável pelo feito foi o professor Edson Claro, que em suas aulas práticas dava ênfase ao jazz e posteriormente convidou Roseli para ser sua assistente. Seu dever era preparar os alunos do primeiro ano da graduação para o encontro com a disciplina no ano seguinte.
Sabendo que queria viver de e para dança, Roseli se matriculou no Joyce Ballet para adquirir técnica jazzística, e posteriormente, aos 27 anos, sentiu a necessidade de fazer aulas de balé clássico. Fez sua primeira aula no Ballet Stagium. Fundou a Long Life, escola com aulas diárias de dança, ginástica e musculação, em 1981. Seu primeiro elenco era formado por 16 integrantes, oito homens e oito mulheres, todos vindos da faculdade de Educação Física e foi com eles, durante o Encontro Nacional da Dança (Enda), que recebeu seu primeiro prêmio de coreógrafa. E mais do que isso, foi nesta competição que o grupo ficou conhecido como Raça porque na ocasião, apresentaram uma coreografia com a música Raça, de Milton Nascimento.
Devido à necessidade de aperfeiçoamento técnico e como nenhum integrante do já chamado Grupo Raça tinha feito aulas de balé clássico, no dia seguinte da competição, Roseli contratou um professor de dança clássica para sua escola já chamada Raça Centro de Artes. E assim como um empurrão, nasceu o Grupo Raça, com a proposta de mostrar que era possível que um corpo comum dançasse bem. Posteriormente se tornaram a mais importante companhia de jazz dance do Brasil.


O trabalho de Roseli foi sendo reconhecido pela facilidade com que bailarinos inexperientes adquiriam consciência corporal, isso porque a coreógrafa misturava técnicas e às apropriava ao padrão de corpo brasileiro composto por características particulares.


O Grupo Raça se firmou no cenário da dança brasileira como uma companhia de jazz dance durante os anos 80 e 90. Hoje a escola (Raça Centro de Artes) tem o jazz dance como carro-chefe, porém, a companhia apresenta trabalhos de dança contemporânea. Tal mudança foi decorrente da maior aceitação do grupo no mercado da dança internacional e também por conta da profissionalização dos bailarinos. As coreografias de Roseli eram a tradução literal do jazz dance: swing, polirritmia, hibridismo, liberdade. Entradas e saídas bem armadas, conjuntos fortes que de repente se dissolviam em duos, trios, quartetos. Solos que ocupavam todo o espaço do palco, e exigiam do bailarino uma entrega total.


Entre os principais trabalhos do grupo sob a gestão de Roseli Rodrigues destacam-se Coisa Estranha – A Evolução da Espécie (1984), Sedução (1985), Benguille Nungugullu (1986), Corpos em Liberdade (1986), Devaneios (1987), Noite Adentro (1988), O Lamento dos Escravos (1988), Meu Amigo, Meu Amigo (1989), Happy Hour (1989), Espaço Diet (1991), Orange x Green (1993), Primeiro Amor (1993), Pele (1994), The War (1994), Caliente (1993), The Blue Night (1994), Cat Feeling (1995), Encontro com Vênus (1996), Abstract e De Minh´Alma (1997), Achalai (1998), Novos Ventos (1999), Caminho da Seda (2001), Tango Sob Dois Olhares (2006), Cartas Brasileiras (2009), e outras.
Confira um trecho de Caminho da Seda:

Além de ser coreógrafa residente do Raça por 30 anos, Roseli coreografou para importantes grupos, entre eles Companhia de Dança Vacilou Dançou do Rio de Janeiro – de Carlota Portella, outra grande incentivadora do jazz dance no Brasil -,  para o Balé do Teatro Guaíra, destacando a obra O Segundo Sopro, reconhecida internacionalmente como umas das principais coreografias do repertório da companhia paranaense, para o balé do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, entre outros. Assinou os musicais Vitor ou Vitória, dirigido por Jorge Takla e estrelado por Marília Pêra; Goodspell, com direção de Miguel Falabella, e o longa metragem Acquária, da cineasta Flávia Moraes.


Apesar de ser um conjunto que transita entre o jazz e a dança contemporânea, a Raça Companhia de Dança, hoje dirigida por Jhean Allex, que foi bailarino da Companhia segue a vertente. Eles acabaram de estrear um novo trabalho aTEMPOral, que deve ganhar circulação nacional em 2019.

Depois da publicação destes três textos sobre a identidade do jazz dance e um breve relato de duas grandes personalidades do gênero em São Paulo cabe aqui dizer que na contemporaneidade as coreografias incorporam novas características – muitas delas influenciadas pela dança contemporânea, pelas danças urbanas – e todas essas transformações criam novos modos de se dançar.  Atualmente o nosso país é um grande produtor de eventos de dança, sobretudo de jazz dance. Nomes da nossa dança, que são professores do estilo fomentam essa arte nas salas de aula diariamente e também nas redes socais. Grandes nomes do Brasil e do exterior ganham projeção em júris, workshops, seminários. E até aí quem ganha é a dança. Só não podemos esquecer de quem nos trouxe até aqui e da fidelidade e da ética que temos que ter para caminhar. Não se pode pedir ao jazz para que seja da década de 80, a não ser que assumamos esse lugar, essa identidade. Não se pode pedir ao jazz o certo ou o errado porque gosto é diferente de crítica. Para olhar é preciso saber de onde vem, é preciso entender sua técnica, sua história. A identidade do jazz dance é transformada a cada dia e sobrevive no corpo de quem o faz.

 
 Texto publicado originalmente no Blog da Só Dança em 6 de maio de 2019

 

 

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