Comissão de Frente, Dança no carnaval

11 novembro 2019 Coreógrafos de Comissões de Frente do Rio de Janeiro e São Paulo contam seus processos de criação desta que é uma das alas mais esperadas do Carnaval Marcela Benvegnu | marcela@trinys.com.br

Alex Neoral – Viradouro – Rio de Janeiro

É “quase” uma roda de samba ou melhor é uma roda de conversa de coreógrafos de Comissões de Frente para Escolas de Samba. Na matéria de hoje convidamos importantes coreógrafos da cena brasileira, que no Carnaval dedicam-se às comissões para uma bate-papo. São eles: Alex Neoral, diretor artístico da Focus Cia. de Dança, coreógrafo da Unidos de Viradouro; Jorge Teixeira, diretor artístico da Companhia Brasileira de Ballet, coreógrafo da Mocidade Independente de Padre Miguel, ambos do Rio de Janeiro. E de São Paulo convidamos a pesquisadora, doutora em artes e coreógrafa Yáscara Manzini, que está a frente da comissão da X-9 Paulistana e Jhean Allex, diretor artístico do Raça Cia. de Dança, que coreografa a Mocidade Alegre.

Às vésperas da semana do Carnaval está turma está literalmente enlouquecida com os últimos detalhes das suas Comissões. E convenhamos, nós, que estamos do outro lado assistindo ao Carnaval sempre queremos ver o que os coreógrafos e carnavalescos vão aprontar. Muitas curiosidades imperaram no nosso universo de espectador, como por exemplo: Como é a criação? Como são os ensaios se a coreografia fica guardada a sete chaves até o dia do desfile? Como é a escolha do elenco? Enfim…. Nessa nossa roda de “esquenta” eles contam “quase” tudo de como será esse grande dia. Confiram.

Qual escola que você coreografa e qual enredo deste ano? Alex Neoral: Em 2019 sou o coreógrafo da Unidos de Viradouro. É a minha estreia nessa escola. Será o meu décimo carnaval como coreógrafo e já trabalhei também na Imperatriz Leopoldinense, Unidos da Tijuca e Vila Isabel. No enredo é “ViraViradouro”, um enredo lúdico que traz como fio condutor uma avó que conta estórias de um livro para um neto. E dessas estórias, lembramos de contos de fada, lendas, tramas fantasiosas.

Jhean Allex – Mocidade – São Paulo

Jorge Teixeira: Este é o meu quinto ano consecutivo na Mocidade Independente de Padre Miguel ao lado do Saulo Finelon, que coreografa comigo. “Eu sou o Tempo. Tempo é Vida” é o nosso enredo, que fala do tempo, das mudanças, do presente, do passado, do futuro, do relógio.

Yascára Manzini: Eu sou coreógrafa da X-9 Paulistana desde 2012 e com eles estou meu oitavo Carnaval. Mas desde 2001 assino comissões. O enredo desde ano da X-9 é sobre “Meu Lugar é Cercado de Luta e Suor, Esperança Num Mundo Melhor. O Show tem que Continuar”. É uma homenagem, ao Arlindo Cruz. Podemos dizer que ele é um sociólogo da favela que entende a cultura periférica, marginal.

Jhean Allex: Estou na Mocidade Alegre, de São Paulo, pelo terceiro ano. O enredo este ano é maravilhoso. “Ayakamaé” que traz a essência do Rio Amazonas, trazendo para a avenida toda a história, a simbologia do afluente do Rio. Como começa a sua criação?

Jorge Teixeira e Saulo – Coreógrafos – Rio de Janeiro Alex Neoral: Nesses 10 anos já comecei de muitas maneiras diferentes, até na elaboração da ideia pois trabalhei com carnavalescos diversos. Esse ano tenho o prazer de lidar diretamente com a criatividade incansável de Paulo Barros. Esse ano, Paulo, eu e Márcio Jahu, que é meu parceiro e coreógrafo assistente desde 2009, partimos de uma ideia original, a partir do enredo, e o Paulo fez a ideia acontecer! Logicamente durante os ensaios fomos lidando com dificuldades que apareciam, e juntos solucionamos. Essa é uma das partes que mais aprecio na criação de comissão: quando você lembra do início do processo e percebe o quanto aquilo foi desenvolvido, o quanto aquele “embrião” se desenvolveu. Estamos trabalhando desde outubro, o que totaliza 5 meses de trabalho e sem dúvida foi a comissão que tive mais tempo para preparar. Jorge Teixeira: A criação sempre parte de uma pesquisa, depois de uma conversa muito bem desenvolvida com o carnavalesco e o presidente da escola. Nós estudamos o enredo e podemos escolher um dos tópicos ou fazer um resumo do que é essa história. Como a comissão de frente é o primeiro elemento a entrar na avenida temos obrigação de apresentar o enredo e a escola. A comissão também dita o ritmo, ela define o tempo de travessia da escola na avenida.

É crucial para a harmonia e evolução da escola. Esse ano escolhemos um trecho e começamos a fazer uma grande pesquisa, que ficou a cargo do Saulo, algo novo, que surpreenda. Hoje a Comissão se tornou um grande show, um termômetro que levanta o público. Depois da pesquisa começamos a criação e os ensaios começam em outubro. Yascára Manzini: Começa quando o carnavalesco delimita o enredo e junto ele, vamos construindo uma ideia. Começamos em março do ano passado a fazer toda a pesquisa, não só sobre o ponto de vista estético, mas sociológico, antropológico. Jhean Allex: Nos dois últimos anos a Escola nos apresentou uma proposta própria, que era discutida entre a Comissão Cultural da Escola e os Carnavalescos e nós seguíamos esse roteiro. Esse ano foi diferente, a Escola nos apresentou a o samba-enredo e eles me deixaram livre para apresentar tanto o que eu gostaria como proposta de movimento e fantasia. Está sendo incrível.

E como foi a escolha do elenco?

Jorge Teixeira: Aqui no Rio de Janeiro as comissões de frente têm um número mínimo de 10 componentes e um número máximo de 15 componentes aparentes, mas podemos usar quantas pessoas queremos. O elenco é composto por bailarinos que já fazem o Carnaval com a gente há um tempo, que estão acostumados com o processo e, sobretudo, porque eu já conheço o corpo deles. Essa é a minha parte, do elenco, criação, desenvolvimento da temática. Esse ano temos 22 pessoas na comissão, são seis mulheres e nove homens (15 aparentes) oriundos da Companhia Brasileira de Balé e do Ballet da Escola do Theatro Municipal do Rio de Janeiro. A gente não faz balé na avenida, mas a gente sabe a resistência do bailarino e isso é fundamental.

Alex Neoral: Varia muito de acordo com a ideia da comissão. Já trabalhei só com elenco masculino, misto, somente bailarinos, circenses, capoeiristas, atores e até celebridades como Fafá de Belém. A comissão desse ano é totalmente composta por homens.

Yascara Manzini – X9 Paulistana

Yascára Manzini: Fazer uma coreografia para Carnaval é diferente de fazer um trabalho para um musical, para um balé, por exemplo. Os meios e modos de produção são muito diferentes, sem contar a questão da pista. A dança de uma comissão acontece em perspectiva quase no tempo todo. Ela chega, dança, passa na sua frente e vai embora. É vista de cima para baixo e é preciso pensar na continuidade. Na X-9 me interessa mais como as pessoas interagem na dança do que ter um bailarino. Eu tenho por exemplo pessoas que não são bailarinas na Comissão. Eu dou aulas na comunidade e essas pessoas apresentam a vontade de participar e eu as convido para integrar o time. Comissão é parecido com o time de futebol, todos tem que fazer o gol.

Jhean Allex: Antes de pensar no elemento que vou chamar para a comissão, tenho que pensar no tema, quantas mulheres ou homens eu vou precisar porque esses personagens estão ligados ao enredo. Esse ano tenho um elenco que tem praticamente a mesma altura e três elementos chaves. Tenho esse material humano dentro do Raça Escola de Artes e no Raça Cia. de Dança e isso nos ajuda ainda mais a trazer uma pluralidade e uma linguagem para a cena.

Jorge Teixeira – Mocidade – Rio de Janeiro

Como são os ensaios?

Alex Neoral: Os ensaios normalmente são feitos nas madrugadas. Uma pelo fato de ser um horário que conseguimos ter todo o elenco reunido. Outra que é o momento em que o barracão da escola fica vazio e temos um espaço físico para criar. Hoje, temos a preocupação de manter o sigilo da ideia, então todos os testes e ensaios são feitos na própria escola e tentamos manter à sete chaves.

Os ensaios técnicos normalmente por respeito ao público, apresentamos uma coreografia que não é a do desfile. Ou usamos elementos e trechos da original. Mas nessa apresentação o público já pode perceber a criatividade do coreógrafo. Jorge Teixeira: Começamos a ensaiar em outubro. E no mês de janeiro eles passam a ser quase que diários. Só temos o horário para começar. Ainda tem os ensaios de rua, organizados pela escola com a comunidade de Padre Miguel e o ensaio técnico que é feito na Sapucaí.

Yascára Manzini: Temos 3 tipos. O ensaio privado é onde trabalhamos as práticas corporais, dança, que são feitos dentro da quadra ou em algum espaço parceiro. A gente ensaia na pista do Sambódromo. A gente vai cedo ensaia e quando chega o nosso horário, vamos para a pista. Além de pensar a configuração especial está funcionando a gente também está ligada ao quesito evolução.

Ela quem dá o ritmo para o resto do desfile. Se a Comissão entra mal, tudo desanda. Se ela passa atrasado a Escola tem que correr no final do desfile, tem que ser o tempo exato. O coreógrafo também tem que estar preocupado com o tempo, uma negociação com o diretor de harmonia no tempo.

O tempo da passagem da comissão influencia a composição coreográfica e temos que pensar o tamanho dos carros e o número dos componentes, tudo tem que estar alinhado. Os ensaios técnicos servem para que a gente veja na prática se aquilo que estamos fazendo nos ensaios específicos funcionam. A escola do grupo de elite tem três ensaios nesse modelo. No primeiro ensaio a gente sente a avenida, no segundo e no terceiro é bem pontual. É preciso ser a risca para ver se tudo funciona.

Jhean Allex: Os ensaios do dia-a-dia são mais árduos e geralmente acontecem de noite e chegam a entrar na madrugada porque é o momento que conseguimos estar todos juntos. A comissão aqui em São Paulo se desloca o tempo todo… somos o cartão de visita da escola. Os ensaios técnicos são o nosso pré-desfile e nos ajudam muito a sanar possíveis problemas que podemos ter no dia oficial. É onde a gente vê a resistência do bailarino durante 35 minutos dançando no chão. Ele é essencial para termos um termômetro do que vai acontecer na avenida.

Qual a dificuldade de coreografar uma comissão de frente?

X9 – Carnaval 2017 Alex Neoral: Existem muitas dificuldades! A primeira é você criar para uma competição. O trabalho já deve surpreender, e essa premissa muitas vezes dificulta o processo. O que seria um resultado natural, hoje é uma exigência: a surpresa. Outra dificuldade é a estrutura que a escola dá para a equipe criativa. Nesses 10 anos, esse é o primeiro carnaval que tive o protótipo dos figurinos, o tripé, os elementos cenográficos, no primeiro dia de ensaio. Isso é inédito! Esse privilégio possibilitou que lidássemos mais com os erros e ensaiássemos mais próximo do real.

Jorge Teixeira: As diversas coreografias que tem que ser montadas. Coreografias tem que ter efeito, e eles tem que ter motivo, razão. Por isso temos que estudar muito para que ele seja pertinente ao enredo. Algumas coreografias são de avanço, de espera, de desmonte, do jurado, de remontagem. É uma obra bem complexa de dois minutos e temos que contar uma história nesse tempo, que tenha começo, meio e fim. Também temos que ter uma coreografia que chamamos de Zero, que é aquela que não sai do lugar para uma eventualidade como um carro que quebra, ou seja, temos que estar prontos para tudo. Yascára Manzini: Quando entrei no Carnaval o mais difícil para mim foi começar a compreender que voz é corpo e corpo é voz e como isso é importante. A comissão não é uma ala dançada e esse assunto é muito discutido. Ela tem um fundamento. Ela só existe para apresentar a escola e saudar o público.

Nos primórdios do século 20, você tinha uma ala de diretores das escolas que vinham na frente, vestidos formalmente para fazer esse papel. Na década de 50 os professores das Belas Artes entram no Carnaval do Rio de Janeiro e a questão estética começa a mudar e ficar mais erudito. E isso reverbera na década posterior quando a classe média branca começa a frequentar a escola. Na década de 70 com mais pessoas frequentando o ritmo da bateria começa a mudar e ficar ainda mais rápido e começamos a pensar nos carros e isso gera o Carnaval que pensamos hoje. Na Comissão você pode fazer o que for, mas se você não apresenta a escola e saúda o público, vai ser uma ala coreografada e perde ponto, porque não deveria estar ali.

A grande sacada como coreógrafa é como lidar com os cumprimentos, fundamentos com as questões coreográficas e teatrais. Jhean Allex: A dificuldade é a de criar algo para ser visualizado de cima e ter um efeito para que a gente consiga apresentar o samba-enredo. Hoje as comissões vão além de uma apresentação, é um espetáculo. Como podemos diferenciar esse trabalho que tem que ser dançado para todos os lados?

Comissão de Frente X9 – 2017 – Deuses Gregos e a coreografa Yascara Alex Neoral: Além dele ter essa relação lateral, ele é bem específico pois a comissão vem na frente puxando a escola e a coreografia deve deslocar e viajar na avenida. Ela tem que poder parar a qualquer momento ou em qualquer problema que a escola possa ter, e isso requer atenção e improviso dos bailarinos. Existe uma apresentação também exclusiva pra cada um dos quatro jurados. É nessa performance que o quesito é avaliado e ganhamos uma nota.

O nível das comissões é tão alto hoje em dia, que a intenção do jurado é ver onde pode tirar décimos. E por isso o rigor pela busca da perfeição. Mesmo em uma coreografia de jurado temos que pensar que temos público atrás e isso é um problema quando você tem tripés altos ou uma coreografia totalmente frontal. Cada comissão é única, não existe fórmula. Claro que a experiência ajuda e vamos percebendo o que funciona na avenida, mas depois da quarta-feira de cinzas, voltamos ao zero em busca de mais uma ideia mirabolante. Jorge Teixeira: Essa é a grande diferença. Procuramos fazer um trabalho que seja 360 graus, para que toda a avenida seja vista. Ainda tem uma dificuldade que um jurado é para a esquerda e o outro para a direita, então a coreografia tem que ser completamente invertida.

Alex Neoral – Viradouro – 2017

Yascára Manzini: A dança está em camadas dentro do desfile. As hierarquias da dança são diferentes no Carnaval. Você tem a concepção, o figurino, o samba-enredo e depois você começa o processo. A dança na Comissão tem um efeito de impactar a Escola na avenida. Quando mais ela cria empatia com o público, ela prepara-o para receber a escola. Ele precisa estar em festa. Gosto de criar movimentos que a plateia também possa dançar com a gente e me pergunto: quem está dançando para quem? Esse é o lugar da dança, que tira você do estado de apatia. A dança só faz sentido na avenida se ela gera essa força. Essa questão de dançar para todos os lados está ligado ao cortejo, relação com a perspectiva que chega a sua frente e vai embora. Não é palco italiano. A coreografia tem que fazer sentido para quem está no plano do chão e de cima. É preciso pensar em todos os espaços e pensar na narrativa do corpo e do espaço. Não acredito em representação

. Jhean Allex: É pensar que você cria numa sala de ensaio e vai para uma avenida. É preciso olhar para a coreografia de cima e dos lados sempre pensando nos deslocamentos, o que é muito diferente do que fazemos quando coreografamos para o palco italiano. Qual a adrenalina do momento da hora ‘H”? Alex Neoral: Carnaval se faz na avenida! E é como olimpíadas, você ensaia muito para ter apenas uma chance, uma chance única para poder brincar no desfile das campeãs. Tem que dar certo! Acredito que pra todos, a maior emoção é quando a bateria da escola sobe; não tem como não arrepiar.

Jhean Allex – Mocidade – São Paulo

Jorge Teixeira: É um misto muito grande. Tem a emoção de estar na avenida, e tem uma preocupação muito forte que é dos riscos da Comissão. Tudo tem que dar certo e nem tudo está ao nosso controle. Eu fico tenso, curto o desfile só quando termina, porque durante é preciso estar completamente conectado. E se dá algo errado temos que esperar até a quarta-feira de cinzas para ver o que o jurado achou. No ano passado fomos a única comissão a ter a nota 40, ou seja, 10 de todos os jurados de 14 escolas que desfilaram.

Yascára Manzini: Na hora de entrar na avenida dá um frio na barriga e a gente não vê nada na nossa frente. A gente sente a arquibancada que pulsa de energia, ouve o sambista falar o nome da escola, toca a sirene, os portões abrem… É um momento único. Você entra com 40 pontos e você só perde pontos. Não é um espetáculo é uma guerra contra a gente mesmo. Você só pode se emocionar depois.

Jhean Allex: A emoção de estar a frente de uma escola de samba, de puxar a Comissão, pisar na linha, ver a bateria ao seu lado, a arquibancada cantando o samba-enredo… você vê um mar de pessoas, os carros… É uma energia incrível com uma responsabilidade única. São emoções de um ano, que vivemos em 33 minutos no dia do desfile oficial.

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