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Historia da dança palavras em movimento

May 29, 2019

 



(Mais) Um espaço para a refle­xão em dança e sobre ela. Esta é a con­fi­gu­ra­ção deste blog que acaba de ser lan­çado por uma das nos­sas mais impor­tan­tes bai­la­ri­nas clás­si­cas bra­si­lei­ras: Ana Botafogo. Um espaço para divi­dir­mos ideias, con­cei­tos, tex­tos, memó­rias; para a publi­ca­ção de ensaios, crí­ti­cas, comen­tá­rios. Para nos debru­çar­mos sobre a arte que faze­mos por meio das pala­vras em movimento.


Neste nosso espaço e nos post assi­na­dos por mim ao longo deste ano, vocês sem­pre lerão tex­tos publi­ca­dos na Revista de Dança  diri­gida por mim, ao lado da Flávia Fontes Oliveira, que assim como o blog vem somar con­teúdo e infor­ma­ção ao lado de tan­tos outros veí­cu­los de dança do Brasil.


O texto que esco­lhi para este pri­meiro post – Ekman, sin­gu­lar – foi escrito por mim em feve­reiro, quando estive no Holland Dance Festival, em Haia, Holanda e é ape­nas um aque­ci­mento para a apre­sen­ta­ção do NDT1, no Brasil, em junho, nos pal­cos do Municipal do Rio e de São Paulo.


Aproveitem a lei­tura e dan­cem com as palavras.
Um brinde ao novo espaço!
Ekman, sin­gu­lar
Por Marcela Benvegnu, de Haia
Composto por três dife­ren­tes peças, o novo pro­grama do Nederlands Dans Theater 2 (NDT2), deno­mi­nado Offspring, revela mais do que exce­len­tes e jovens intér­pre­tes: a tem­po­rada aposta nos coreó­gra­fos da casa, que já inte­gra­ram o NDT 1, a com­pa­nhia prin­ci­pal, como bai­la­ri­nos. Uma suces­são natu­ral e inte­li­gente na busca por cri­a­do­res que sabem olhar “de den­tro”.


Gerald Tibbs, dire­tor artís­tico do NDT2, optou por duas estreias mun­di­ais durante o Holland Dance Festival: I new them, de Johan Inger, e Left Right Left Right, de Alexander Ekman, foram apre­sen­ta­das ao lado de Offspring (2006), de Lukás Timulak. Um pro­grama com diver­si­dade de lin­gua­gens con­tem­po­râ­neas e que fez o público sair com von­tade de ver mais.
I new them é o segundo tra­ba­lho de Inger para o NDT2 e traz à cena uma apo­lo­gia ao amor, ao desejo e à soli­dão. Sobre a música de Van Morrison, nove intér­pre­tes apre­sen­tam uma core­o­gra­fia mar­cada por movi­men­tos fluí­dos, que ganham mais força nos duos e trios.

 

O cená­rio, assi­nado pelo coreó­grafo, é uma dia­go­nal de mais de 30 tubos prata na ver­ti­cal, pelos quais os intér­pre­tes entram e saem, prendem-se e relacionam-se. Quando eles se aven­tu­ram pelo espaço, a pla­teia vê parte dos seus cor­pos, o que torna a movi­men­ta­ção ainda mais inte­res­sante.


Em uma linha mais futu­rista está a core­o­gra­fia título da tem­po­rada. Timulak criou Offspring em 2006, ins­pi­rado pelo nas­ci­mento da filha. O tra­ba­lho mes­cla músi­cas expe­ri­men­tais com clás­si­cas e pinta a cena e a pla­teia com raios laser que tomam conta do espaço. Com rela­ção à movi­men­ta­ção, dança con­tem­po­râ­nea de qua­li­dade, mas sem uma dra­ma­tur­gia forte que sus­tente a peça do começo ao fim.


O grande tra­ba­lho da noite é Left Right Left Right. Assinado pelo jovem Ekman, de 28 anos, a peça aborda dife­ren­tes dinâ­mi­cas de movi­mento. Ora os bai­la­ri­nos pare­cem mane­quins a espera da nova roupa total­mente em pausa, ora são atle­tas em busca do pri­meiro lugar em uma cor­rida. Tempo, con­cen­tra­ção e ritmo per­meiam a core­o­gra­fia que traz ras­tros do pro­cesso core­o­grá­fico para a cena.

 

Em um deter­mi­nado momento, a cor­tina se fecha e, no telão, é pos­sí­vel ver os bai­la­ri­nos exe­cu­tando as mes­mas sequên­cias em dife­ren­tes espa­ços como esca­das, metrôs, pra­ças, ruas. Os depoi­men­tos indi­vi­du­ais reve­lam o estra­nha­mento de mui­tos deles em rela­ção ao olhar dos outros e como é dife­rente para um corpo acos­tu­mado à caixa-preta se aven­tu­rar por outras expe­ri­ên­cias.
Left Right Left Right é diver­tido.

 

Por exem­plo: uma bai­la­rina de ves­tido ver­me­lho que anda a pas­sos len­tos durante toda obra jus­ti­fica o porquê está ali: “Machuquei o pé na pri­meira semana de mon­ta­gem e só me res­tou ficar andando no palco com este longo ves­tido ver­me­lho”. A pla­teia cai em risos. A ilu­mi­na­ção assi­nada por Tom Visser dia­loga com o figu­rino do pró­prio coreó­grafo. O maca­cão cinza, como aque­les de pre­si­diá­rios, e uma luz fria gelo ficam quen­tes tama­nha a pre­ci­são e a rapi­dez dos movi­men­tos na cena.
E se já estava bom, fica ainda mais

 

É na segunda parte da obra que Ekman sur­pre­ende. O cená­rio inu­si­tado revela 12 estei­ras ergo­mé­tri­cas liga­das, que ganham mais velo­ci­dade quando os bai­la­ri­nos dan­çam sobre elas. Uns mais rápido des­li­zam sobre as pla­ta­for­mas como pran­chas de surfe, outros cami­nham, cor­rem, sapa­teiam. Cada qual se apre­senta de forma indi­vi­dual e de repente todos estão iguais nova­mente. Homogeneidade, indi­vi­du­a­li­dade, grupo. Marcas de uma soci­e­dade que é ao mesmo tempo sin­gu­lar e plu­ral. Singular mesmo é Ekman.

 

Posted on 29 de maio de 2012 by Marcela Benvegnu 

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